Noir francês

A lua na sarjeta (La lune dans le caniveau, 1983), David Goodis por Jean-Jacques Beineix.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

SANGUE E GELO

Sangue e gelo (Ice) é comumente considerado um dos melhores romances de Ed McBain e até a sua obra-prima. A trama, tradicional, tem início com o assassinato de uma jovem dançarina loura, ao voltar para casa depois de deixar o teatro, onde se exibe na peça Fatback, sucesso da temporada. Sua morte é a primeira de muitas que vão requerer do Distrito 87 atenção total, durante a investigação. Ed McBain, que escreveu sem perder o vigor mais de 50 romances com os detetives do Distrito 87, tem um estilo único, uma mistura de Chandler com Simenon. Em muitas páginas, a investigação permanece em segundo plano, e a vida cotidiana dos detetives ganha relevo, o que acaba por conferir aos seus livros um valor que ultrapassa o simples relato policial. Em Sangue e gelo, especialmente, há o drama paralelo de uma policial cujo único trabalho na corporação é servir de isca para a detenção de estupradores e maníacos sexuais. Num arroubo de desespero e medo, ela chega a confessar, um dia, a um colega, que sonha em ser estuprada, de forma encenada, como no teatro ou no cinema... Ao passo que a trama se desenvolve, o leitor vai conhecendo os detetives e mergulhando em suas vidas, não diferentes das nossas, cheias de receios, dúvidas, traumas, sonhos frustrados e alguns raros momentos de felicidade, como o de Carella, que, no dia dos namorados, descobre que a esposa tatuou, sobre a tatuagem de borboleta que ela já possuía, uma outra borboleta, maior, simbolizando-o e sugerindo, entre eles, um amor perene e de inesgotável desejo sexual. De difícil classificação, por não constituir uma narrativa comum, e impossível de se resumir em poucas linhas, por reunir mais do que uma trama policial, Sangue e gelo proporciona uma proveitosa imersão no universo e estilo do autor, ao mesmo tempo que documenta o cotidiano das grandes metrópoles americanas, das quais a cidade, não nomeada pelo narrador, é uma gélida e legítima alegoria.

sábado, 22 de setembro de 2012

OS INTOCÁVEIS


Os intocáveis, de Boileau-Narcejac, pseudônimo forjado pela dupla de escritores franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac, é um claro exemplo do relato policial de ação. O romance conta a história de dois párias, intocáveis pela desonra: o desempregado Jean-Marie Quéré e o ex-prisioneiro Ronan De Guer. No decorrer da leitura, ficamos sabendo do assassinato do comissário Barbier, cometido dez anos antes por Ronan que, na época, era um ativista político. Após ser solto, este conta com a ajuda de um amigo da juventude, Hervé, para encontrar o paradeiro de Quéré, que, segundo Ronan, o delatou para a polícia, fazendo com que fosse preso e que a sua noiva, Catherine, grávida, cometesse suicídio. Portanto, há também uma investigação. Mas não exatamente como acontece no gênero policial de enigma. O detetive contratado por Hervé não procura o assassino do comissário Barbier, pois este já foi denunciado e punido. O leitor já conhece o assassino e a vítima. A busca é por Quéré, suposto delator. A intenção de cometer um novo crime é anunciada por Ronan desde o início da narrativa. E nós, leitores, acompanhamos toda a ação, nos convertemos em cúmplices do criminoso. E para este assassinato ― que acontece no ponto exato ― não há investigação, nem punição alguma, pois nada disso é necessário. O desfecho é totalmente previsível, como dizem alguns críticos, mas isto também não importa nem um pouco para os leitores sensíveis. O que, de fato, nos interessa é a angústia de Quéré, casado com Hélène, a quem conhecemos através das cartas que este envia para um amigo religioso. O que nos toca é a agonia de um homem desempregado, que se sente inútil e que desistiu da fé. O que nos desperta é a dor; e o desejo de vingança de um rapaz que perdeu a namorada e que apenas tem como meta a morte daquele que acredita tê-lo privado do sentimento que o guiava. O que nos emociona é o desespero, a paralisia de um antigo padre, que, consciente da sua existência absurda, deixa-se assassinar. O novo crime ou sua punição é o que menos interessa. E nem por isto o livro deixa de ser um relato policial genuíno. Apenas o seu tema central não é a elucidação de um enigma, mas, sim, o destino de duas vidas destruídas por um passado comum.

LIDIANE NUNES, uma infiltrada.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

CONTOS DE CRIME

Contos de crime: clássicos escolhidos, organizado por Flávio Moreira da Costa, é uma excelente amostra do que os grandes autores escreveram de melhor no âmbito da literatura policial. A criteriosa antologia ainda desmistifica a ideia de que o relato policial não é Literatura. Ora, se não é, por que Machado de Assis, Guy de Maupassant e Robert Louis Stevenson o praticaram? Para perder tempo e prestígio? Eis o mistério. Antes de expressar seu preconceito, o leitor deve criar seu conceito, e este livro apresenta uma oportunidade para que ele, despido de grilhões e correntes, julgue por si mesmo até que ponto a leitura de relatos policiais entretém, deleita e faz pensar. Entre os autores arrolados pelo organizador estão, além dos três supracitados: Fiódor Dostoiévski, Saki, Ambrose Bierce, Coelho Neto, Guillaume Apollinaire, Sir A. Conan Doyle, Edgar Allan Poe, Ryunosuke Akutagawa, Jacques Frutelle, W. W. Jacobs e Marcel Schwob. Supremacia maciça das literaturas de língua inglesa e francesa, nas quais o arco de recepção do texto literário é maior e mais afeito a considerar as diferenças como ganhos para a sensibilidade e para o conhecimento. Qualquer que seja a preferência do leitor, ou pelo relato de mistério, centrado na investigação do detetive, ou pelo relato de ação, que opta por narrar os passos do criminoso, os contos enfeixados por Flávio Moreira da Costa são a mais pura afirmação de que as más intenções criminosas oferecem, sim, ótima literatura.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

NÃO ENVIEM ORQUÍDEAS PARA MISS BLANDISH

Quando publicado pela primeira vez, em 1938, Não enviem orquídeas para Miss Blandish (No orchids for Miss Blandish) foi considerado um dos mais violentos romances policiais já escritos e granjeou ao seu autor, o inglês James Hadley Chase, uma inopinada celebridade. Exaltado por alguns e muito criticado por outros (o escritor George Orwell foi um dos seus mais veementes opositores), devido à sua crueza, o romance teve poucas edições em português, das quais a mais conhecida é a da antiga Editora Globo, de Porto Alegre, em 1967, inaugurando a Série Amarela da Coleção Catavento, destinada a publicar as mais importantes obras do gênero policial da época. No formato 12x18cm, com berrante capa de Clara Pechansky e tradução de Leonel Vallandro, a edição trazia informações curiosas, como: "Mais de 500.000 exemplares deste livro já foram vendidos em todo o mundo". Na contracapa, o editor aumentava este número para 700.000 e a quantidade de leitores para mais de dez milhões, além de afirmar que o livro de Chase "na opinião dos críticos, dá uma nova dimensão à novela policial", o que não chega a ser exagero, se levarmos em conta que, excetuando-se autores como Chandler, Goodis, Cain e Hammett, os demais eram bem comportados contadores de histórias de detetive. A história pode ser dividida em duas partes: a primeira, tipicamente de ação, acompanha os bandidos e se fixa no sequestro da garota Blandish, que, mesmo depois de pago o resgate por seu pai, permanece em poder dos sequestradores, mantida à base de drogas e diariamente seviciada; a segunda, de mistério, encena as investigações da polícia, de um gângster melindrado e de um detetive particular, contratado pelo pai da moça para achá-la. Na junção dos dois pontos de vistas está a solução da trama, forte, inesperada e, para muitos leitores, desagradável. A linguagem é descarnada, direta e sem arroubos poéticos, centrada no desenvolvimento objetivo da história, cujo assunto já é por si só excessivamente indigesto. Sem edições há décadas no Brasil, como, aliás, toda a obra de James Hadley Chase, Não enviem orquídeas para Miss Blandish merece voltar a público numa tradução moderna e fiel à sua importância para a história do relato policial moderno, e ainda mais porque sua trama, antes violenta, não passa hoje de uma extensão vulgar da sociedade.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

DÁLIA NEGRA

Em 1947, há 65 anos, portanto, completados no último dia 15 de janeiro, Elizabeth Ann Short (nascida em Medfort, Massachusetts, EUA, em 29-07-1924) era achada morta num terreno baldio da Rua 39, esquina com a Norton, em Los Angeles. O corpo estava divido em duas partes à altura da cintura, eviscerado (sem intestinos, fígado, estômago e baço) e com um corte de orelha a orelha, que conferia à boca um sorriso permanente e macabro. Outras evidências, como lacerações e queimaduras de cigarro nos seios (um dos quais encontrava-se praticamente solto), remoção a faca de tatuagem na coxa esquerda, fraturas nos dois joelhos (já em processo de cicatrização), um talho longitudinal do umbigo ao púbis (provavelmente para extração de útero, bexiga, ovários e reto), marcas de chicotadas e fraturas profundas no crânio e no rosto, além de vestígios do uso de cordas nos pulsos e tornozelos, indicavam que durante vários dias ela fora torturada, estuprada e sodomizada. E ainda, como se o assassino confessasse, apesar do requinte de crueldade, sua propensão à higiene, o corpo de Elizabeth Short tinha sido lavado em água corrente antes de ser jogado no terreno baldio. O sofrimento que ela passou ninguém pode sequer imaginar. E só, abandonada, impossibilitada de pedir socorro, pois é quase certo que o assassino vinha visitá-la, praticava seus atos ignóbeis e depois a largava entregue à dor e à humilhação. Porque frequentemente ela se vestia de preto, e em analogia a um filme célebre naquele tempo, Elizabeth Short recebeu da imprensa o apelido Dália Negra.

Muitos livros e reportagens foram escritos sobre este crime, mas em termos de ficção o mais importante é, sem dúvida, o romance Dália Negra, de James Ellroy. Ao transformar em ficção o assassinato de Elizabeth Short, que tinha apenas 23 anos, Ellroy construiu um livro que é, antes de tudo, uma reflexão sobre a vida americana e seu gosto pelos crimes hediondos. Sua solução para o enigma é, no mínimo, engenhosa: um policial descobre o assassino, mas não o revela à sociedade, obrigando que a realidade e a ficção coincidam, além de sugerir, metaforicamente, que a polícia na verdade chegou ao assassino, mas, por algum motivo, preferiu esquecê-lo. Desse modo, tanto na vida quanto no livro a Dália Negra ficou sendo apenas mais uma mulher morta, entre tantas outras que perdiam a vida na California dourada. O assassinato de mulheres bonitas era um crime tão recorrente na época, que até a mãe de James Ellroy tornou-se uma das vítimas. Em 1958, ele era apenas um garoto quando ela foi achada sem vida numa estrada de Los Angeles. O assassino jamais foi encontrado. Ellroy demorou a se recuperar deste triste episódio, e isso o levou às drogas e ao crime. Mas, graças à literatura, pôde desviar-se e acabou por se tornar um dos mais importantes autores policiais dos EUA e do mundo, desde que publicou Dália Negra, em 1987, que, não por acaso, ele reporta à mãe, Geneva Hilliker Ellroy (1915-1958): "Mãe: vinte e nove anos depois, esta despedida em sangue".

terça-feira, 17 de maio de 2011

ANATOMIA DE UM CRIME: O LIVRO

De volta à estante, o romance que inspirou um dos melhores filmes policiais de todos os tempos, Anatomia de um crime (1959), de Otto Preminger, com James Stewart, Lee Remick e Ben Gazzara, em início de carreira. O filme foi indicado a sete categorias do Oscar, inclusive a de melhor filme.

O livro homônimo estava esgotado no Brasil há várias décadas, era uma raridade editorial só encontrada nos sebos e a preços pouco convidativos. A José Olympio Editora acaba de lançar uma nova edição, com tradução da escritora Sônia Coutinho. Escrito por um ex-promotor, Robert Traver, e baseado numa história real, Anatomia de um crime se passa numa cidadezinha do Meio-Oeste americano, onde o advogado Paul Biegler, com a carreira comprometida, tem a oportunidade de se reabilitar perante a sua categoria profissional, defendendo o tenente Frederick Manion, acusado de assassinar o homem que supostamente teria estuprado sua esposa. Mas o caso não é assim tão simples. Houve realmente estupro? O que houve, na verdade? E qual é o grau de envolvimento da mulher com o homem que foi morto?

Se Alfred Hitchcock afirmava que livros ruins davam bons filmes, o inverso também é verdade. Mas o caso aqui é de um ótimo livro que originou um ótimo filme. Em tempos de romances de qualidade duvidosa, e pretensiosos filmes policiais que, ao fim, não passam de um saco de tiros, sopapos, correria, perseguição de carros e explosões pirotécnicas, leia e depois veja Anatomia de um crime. A perenidade de ambos não é por acaso.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

ATIRE NO PIANISTA

Um pianista exímio, mas estragado para a vida pelo suicídio da esposa; seus dois irmãos bandidos; a garçonete do bar onde ele toca; um brutamontes; dois misteriosos bandidos que perseguem um de seus irmãos; uma casa remota na floresta, aonde os personagens chegam, para um embate violento e decisivo... Não há uma trama propriamente dita neste que é um dos mais célebres e melancólicos romances de David Goodis, e que François Truffaut transformou num excelente filme. Mas sobra miséria, solidão, desespero. Uma fatalidade que engole todos os personagens, como um ralo que, recém-aberto, traga com sofreguidão a água armazenada. Se o leitor espera encontrar uma história policial convencional, nem abra o livro. Não há um crime relevante, nem tampouco uma investigação complexa. A polícia mal aparece na história, e não há diferença entre os bandidos e as demais pessoas. O crime não é uma escolha pessoal, nem muito menos uma condenação. O crime compreende a própria vida e com ela se confunde. É um simples expediente. Um passo na vida pode ser um passo para dentro do crime; e um passo neste, um passo para fora da vida. Não é por acaso que o título em inglês é Down there, algo assim como Na pior ou Para baixo. De fato, todos os personagens estão na pior, caindo, indo abaixo, desabando. Como disse Rainer Maria Rilke, num de seus mais belos poemas: "Olha em redor: cair é a lei geral". Talvez esta seja a epígrafe para Atire no pianista. E uma proveitosa orientação de leitura para o leitor impaciente.

domingo, 8 de maio de 2011

DAVID GOODIS NO BRASIL

Dos autores norte-americanos que mudaram o gênero policial na primeira metade do século XX, talvez David Goodis (1917-1967) seja aquele que teve a aceitação mais discreta no Brasil, com a publicação recorrente de apenas quatro dos dezenove romances que escreveu. Bem ou mal, desde a década de 1980, saem por aqui: A lua na sarjeta (editoras Abril, Brasiliense e L&PM), Atire no pianista (Abril e Brasiliense), A garota de Cassidy (L&PM) e Sexta-feira negra (L&PM). São estes, aliás, os únicos títulos em catálogo no momento, todos pela Coleção L&PM Pocket, da editora gaúcha.

Possivelmente nos anos 1960 ou 1970, vieram a público também entre nós, pela chancela da antiga editora Tecnoprint, alguns outros livros do autor, como Paixão criminosa (Of tender sin), volume 6 da coleção Seleção Criminal. O ladrão, pela mesma coleção, e Fogo na carne, pela coleção Seleção Policial, aparecem nas folhas de propaganda da editora. O primeiro é, seguramente, a tradução de The burglar (1953), mas o segundo, desconfio que talvez seja somente um outro título em português que se atribuiu, na época, a The moon in the gutter (1953).

Estes livros da Tecnoprint (hoje Ediouro) eram muito populares naqueles anos, impressos em papel ordinário, que enferrujava e rasgava facilmente, com capa que logo se tornava quebradiça e vendidos em rodoviárias, aeroportos, bancas de revista e nas lojas da própria editora. Procurar por essas edições, depois de mais de cinquenta anos, é mesmo uma missão quase impossível, pois não eram livros que se guardassem; como os gibis, eram descartados tão logo eram lidos. Mesmo assim, recentemente achei por acaso um exemplar de Paixão criminosa em surpreendente estado de conservação, e foi através dele que descobri que Goodis vem sendo publicado no Brasil há bem mais tempo do que se supunha, que não foram os filmes O tiro no pianista, de François Truffaut, e A lua na sarjeta, de Jean-Jacques Benieix, que o projetaram entre nós.

Para o leitor que admira Goodis, conhecido pelo epíteto "poeta da violência e da solidão", há também as edições portuguesas. A Editorial Caminho, na sua coleção Caminho Policial, publicou pelo menos Disparem sobre o pianista (Down there, 1956) e O ladrão (The burglar). E as Edições 70, Beleza mortal (Behold this woman, 1947).

Como há neste momento um certo interesse do leitor brasileiro pelas obras importantes do gênero policial, que definitivamente não visa apenas ao entretenimento, à leitura rápida e descartável, esperamos que tanto a L&PM quanto outras editoras passem a traduzir mais livros de Goodis no Brasil, como tem ocorrido com seus pares Dashiell Hammett, Raymond Chandler, James M. Cain, Ross MacDonald e Cornell Woolrich, que, em edições bonitas e bem cuidadas, invadiram as livrarias.

sábado, 7 de maio de 2011

IRRESISTÍVEL PAIXÃO

Elmore Leonard é um dos mestres atuais do relato policial norte-americano. Um mestre também da literatura de fronteira, mais conhecida entre nós como "histórias de faroeste". Nos relatos ambientados no Oeste americano do século XIX, publicou algumas obras-primas, que figuram hoje no cânone do gênero, como os romances Hombre e Valdez vem aí, e os contos Os cativos e 3:10 para Yuma. No gênero policial, a lista de livros importantes é extensa, entre os quais se destacam Pronto, Cárcere privado, Ponche de rum e Irresistível paixão, cujo título original é o mais adequado "Out of sight". A trama põe em contato e sob o efeito de uma paixão irrefreável dois personagens antípodas: o assaltante de bancos Jack Foley e a agente federal Karen Sisco. Ao fugir da cadeia, Foley acaba encerrado no porta-malas de um carro ao lado de Karen. Os dois estão ali, lado a lado, braços e pernas que se tocam, o calor dos corpos se confundindo, e de repente descobrem que possuem um gosto comum: o cinema. Alguns filmes se destacam, entre os muitos que os dois comentam ao longo da narrativa: Três dias do condor, Bonnie e Clyde, Um assaltante trapalhão, Pulp fiction, Repo man, A morte num beijo, Estranhos no paraíso. Separados, não esquecem mais um do outro, mas sabem que qualquer união, por mais rápida que seja, é impossível. Ele praticamente estaria se entregando à lei, e ela seria acusada de colaborar com um criminoso procurado... Não há mesmo o que fazer quando o amor surpreende duas pessoas que não se encaixam. E é isso que Karen Sisco (personagem retomada mais tarde por Leonard no conto Karen namora) deixa evidente, no desfecho, embora de maneira indireta, metafórica: "Quero que saiba que acho você um sujeito e tanto. Nem por um minuto achei que fosse velho demais para mim. Mas tenho medo de pensar de modo diferente daqui a uns trinta anos". Irresistível paixão é um romance policial imprevisível e improvável, que Elmore Leonard parece ter escrito com a mesma paixão que consome sem piedade os personagens. Sabemos, no entanto, que não é assim. Às vezes, o texto espontâneo, que tanto fascinou o autor, não conquista os leitores; às vezes ocorre o inverso: o texto que exigiu esforço tremendo, a ponto de quase fazer o autor desistir de sua empreitada, recebe dos leitores um acolhimento caloroso. Não sei qual o caso deste romance; sei, porém, que, tanto pelo estilo (preciso, direto, repleto de citações cinematográficas, com poucas descrições de ambientes, mas ótimas análises sobre a vida cotidiana) e pelo assunto (o amor impossível entre seres que se acham em polos opostos da existência) é uma história arrebatadora, que não consegui largar senão ao virar a última página. E quem me conhece sabe que raramente faço isso: costumo economizar, durante a leitura, os livros que admiro.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O INVASOR

“Um homem diante de um deserto pode, ao menos, caminhar em qualquer direção.” Esta é, talvez, a chave para decifrar a metáfora da novela O invasor, de Marçal Aquino, recém-publicada em formato “quase de bolso” pela Companhia das Letras, na coleção Má Companhia.

Alguns leitores podem argumentar que não há nada naquela história para ser decifrado. Mas há sim, pois a narrativa é em primeira pessoa. É um testemunho pessoal do personagem: é ele quem escreve tudo o que viveu, porque está vivo, ou esteve por um tempo, o suficiente para escrever sua história, em algum lugar. Não hesito em afirmar que, no deserto do seu drama, ele tomou outra direção, se corrompeu de todo, pois todo homem tem seu preço, que se mede ou em dinheiro ou em oportunidades. Neste sentido, no desfecho, foi oferecida a Ivan uma nova chance, e ele a agarrou, destituído de seu último fiapo de moral: quem suja as mãos uma vez suja duas.

O argumento de O invasor, que constituiu a base do filme homônimo de Beto Brant, uma das melhores produções brasileiras do final dos anos 1990, põe em pauta a afirmação — terrível — de que qualquer problema no Brasil pode, com proveito, ser resolvido a bala. O diálogo entre as partes faz perder tempo e dinheiro, e não passa de um vício socrático. Se alguém não concorda com você ou o está atrapalhando, elimine-o. Com isso, você ganhará tempo e economizará dinheiro, pois um matador de terceira categoria faz o serviço por qualquer trocado — e vida que segue. É assim entre parentes, entre vizinhos, políticos, sócios. Os jornais, a tevê e a internet estão cheios de histórias parecidas, cunhadas com base nesta fórmula.

E não foi de outro modo que Alaor (Giba, no filme) e Ivan decidiram resolver suas diferenças com Estêvão, sócio de ambos na construtora Araújo & Associados. Pagaram a Anísio para resolver seu problema, matando Estêvão. Só não contavam com o fato de que Anísio, depois, também se tornaria um problema, ao invadir suas vidas. E agora, quem vai matar quem? Retrato de nossa época, e não apenas no Brasil, O invasor é, além de uma ágil narrativa policial, um ótimo exame de quem somos nas situações extremas do cotidiano. Alguns (talvez a maioria) ainda preferem o diálogo, o acerto de contas verbal, mas há quem prefira encomendar um corpo, como se telefonasse e pedisse uma pizza.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O MISTERIOSO CASO DE STYLES

Com este romance, Agatha Christie fez sua estreia na literatura policial, em 1917. E foi com ele também que ela forjou seu estilo (direto, dialogado e analítico, voltado exclusivamente para o desenvolvimento da trama) e seu método: narrar uma história policial, geralmente de assassinato, em que vários suspeitos são minuciosamente examinados por um detetive excêntrico e sagaz, quase sempre Hercule Poirot, que constitui seu personagem mais recorrente e um dos mais populares do gênero, ao lado de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, e Jules Maigret, de Georges Simenon. A história é simples e se tornou uma fórmula à qual a autora retornará sempre, com variações de cenário, personagens, clima e atmosfera. Um casarão antigo, num lugar remoto, o proprietário ou proprietária, seus moradores habituais, incluindo os criados, seus hóspedes frequentes e os visitantes de passagem. Um crime acontece, em situação e local que desafiam a inteligência mais aguçada, e todos se tornam suspeitos. Nesta aventura inicial, a Sra. Inglethorp morre envenenada com estricnina, e os suspeitos são seu marido, seus dois enteados John e Lawrence, sua nora Mary, a agregada Cynthia, o Dr. Bauerstein e Evelyn Howard, espécie de faz-tudo da casa. Poirot, o promotor público e a Scotland Yard investigam o caso, mas é Poirot, obviamente, quem o resolve, surpreendendo a todos com seu método preciso e detalhista: a polícia, os personagens, o promotor, o juiz, os leitores e, talvez, até a própria autora, já que esta era a sua primeira incursão no gênero. Pelo que propõe, e como propõe, O misterioso caso de Styles transformou-se num marco do romance policial, sempre citado por críticos e estudiosos, ainda que Agatha Christie, com sua capacidade de variação e virtuosismo, o tivesse superado mais tarde com romances bem melhores.

sábado, 29 de janeiro de 2011

OS PECADOS DOS PAIS

Os pecados dos pais é um dos melhores romances de Lawrence Block, um dos principais representantes da terceira plêiade de escritores policiais norte-americanos, se concordarmos que o gênero nos EUA começou com Edgar Allan Poe, no século XIX, prosseguiu com James M. Cain, Raymond Chandler, David Goodis, Dashiell Hammett e outros, na primeira metade do século XX, até chegar a Lawrence Block e seus pares, nas décadas seguintes.

O argumento deste romance, que é um dos mais breves do autor, é tradicional e, ao mesmo tempo, surpreende pelo deslocamento que promove na construção narrativa, mais precisamente no foco da investigação. Uma jovem (bonita, evidentemente) é encontrada morta em seu apartamento. É óbvio que foi assassinada, e o principal suspeito é um de seus amigos mais próximos, que morava com ela e é detido na rua em estado de choque, as roupas cobertas de sangue. O pai da moça, inconformado com o resultado das investigações da polícia, contrata o detetive particular Matthew Scudder. É então que o relato torna-se precioso: o detetive começa a investigar o crime em busca do assassino, mas, gradativamente, deixa-se atrair pela vida pregressa da jovem morta, cheia de detalhes inesperados e incursões sensuais.

Formado na tradição do relato policial angloamericano, de investigação pura (Poe, Agatha Christie) ou embate corporal com os bandidos (Hammett, Chandler), Lawrence Block, neste romance, flerta com o método de criação do belga George Simenon, que, na figura do seu célebre detetive, o comissário Maigret, preferia enfatizar a vida das pessoas que transitavam em volta da vítima, em detrimento do crime em si, para ele uma simples consequência de atos humanos e corriqueiros.

O desfecho, no entanto, reconduz a narrativa a um fluxo mais coerente com a formação de Block, e não é incomum que vejamos, no último ato do detetive, um reflexo do procedimento de vida do investigador particular Philip Marlowe, de Chandler. Como Marlowe, Scudder é um homem solitário, desencantado, cínico e, com alguma frequência, mostra-se um moralista incurável, um romântico aprisionado à servidão de si mesmo: um sujeito sem ilusões pessoais. Tais características emolduram a sugestão de autopunição que ele oferece ao assasssino, e que este, fragilizado e seduzido, segue à risca.

Mas isso não é demérito ao livro nem ao seu autor. Pelo contrário: sendo o detetive quem é, um católico, e depois de viver o esfacelamento da própria família, é natural que ele aja daquele jeito: com a noção, equívoca, de que pode consertar e reger o mundo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

BADLANDS, O FIM DO SONHO AMERICANO

Não são muitos, na ficção norte-americana e mundial, os textos inspirados no assassinato do presidente John Kennedy, o terceiro mais importante evento da história dos EUA durante o século XX: o primeiro seria o ataque japonês a Pearl Harbor e a derrota no Vietnam. Romances de valor sobre aquele crime, se acreditarmos verdadeiras as palavras de Jonathan Vankin, há dois: Libra, de Don Delillo, e Tabloide americano, de James Ellroy. Ambos muito elogiados e pilares em seu gênero. Nos quadrinhos, especialmente, havia um hiato, até que surgiu, em 2003, quarenta anos após a morte de Kennedy, Badlands, o fim do sonho americano, de Steven Grant (roteiro) e Vince Giarrano (arte).

A narrativa é fluente, e o enfoque, inédito: Lee Harvey Oswald não matou Kennedy; foi posto na história, e na História, como um curinga de baralho, porque o verdadeiro assassino desapareceu e era preciso oferecer um culpado à nação e ao mundo. Quanto aos verdadeiros responsáveis pelo crime, certamente o financiou a esfera política insatisfeita com o desempenho do presidente, com suas gafes, suas trapalhadas. Os desenhos, num P&B cinematográfico, são realistas e movimentados, com ângulos que surpreendem e obrigam o leitor a se deter um instante, ao mesmo tempo fascinado e avaliando o que viu.

Um outro aspecto do qual o leitor tira enorme proveito reside no fato de que a história não se esgota na primeira leitura: do tipo enquadrado e com muitos vaivéns no espaço e no tempo, apresenta uma montagem que a princípio não parece coerente ou, pelo menos, soa canhestra. Mas esse é o propósito: deixar a cargo do leitor organizar a narrativa, conforme a recepção das partes e o encadeamento dos quadros em sua mente. Badlands é ainda valiosa por intercalar em sua representação de um evento histórico, e com bastante coesão, sem parecer uma ferramenta postiça, referências precisas à vida corrente dos anos 1960, como a música popular (especialmente Beatles), a contracultura, o amor livre, a Guerra Fria, o mundo burguês endinheirado (com sua afetação e suas manias) e os hippies nômades.

Mal terminei de ler Badlands, já sabia que a leria de novo, em breve, o que só muito raramente ocorre com uma HQ, e em geral com aquelas que apresentam um grau mais elevado de arte, ou por seus desenhos ou por seu assunto: Eisner, Berardi & Milazzo, Pratt, Moebius, Manara. Talvez não tenha sido esta a intenção dos criadores de Badlands, mas é inegável que, como HQ policial baseada num acontecimento histórico dos mais relevantes dos EUA, a versão que ela sugere é original e duradoura: Kennedy não foi assinado por um louco, nem eram loucos aqueles que o assassinaram; houve premeditação profissional e havia um agente que apertou o gatilho e que, por uma interferência irônica mais interna que aleatória, escapou ao seu destino de bode expiatório.

Com isso quererá nos dizer que não se pode manipular a contento uma cadeia de eventos? Não sei, afinal de contas é só uma HQ.

domingo, 2 de janeiro de 2011

"MARKHEIM", DE STEVENSON

O fato de classificarmos A cartomante, de Machado de Assis, como um conto policial evidentemente desagrada aos puristas. Aqueles leitores que por ingenuidade acreditam que a ficção policial é uma exclusividade da literatura de consumo ou de entretenimento, e que a chamada "alta literatura" jamais se interessa pelo gênero ou, quando o faz, é com outros propósitos. Não só A cartomante é um conto policial, e dos melhores já escritos, como inúmeros outros "altores" (isso mesmo, com "L", para dar conta de "autores altos", inseridos na alta literatura) incorreram no gênero, e ainda o fazem, e cada vez mais. Ontem, voltando ao meu "regímen" antigo, de ler por dia pelo menos um conto, reli Markheim, de Robert Louis Stevenson, que integra a antologia organizada por Bráulio Tavares Contos fantásticos no labirinto de Borges (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005). Como o conto supracitado de Machado de Assis, este relato de Stevenson é do gênero policial, mas não se restringe a contar ou elucidar um crime. Há um crime, evidentemente, que poderíamos classificar de primeira história, ou história visível, como propõe Ricardo Piglia, e há a história secreta, apresentada em segundo plano, e que se mostra no desfecho, quando o protagonista, um assassino, pela primeira vez decide por si mesmo sobre sua vida. Até então ele ia ao curso dos acontecimentos. Agora, contudo, toma uma séria decisão, e exatamente quando, pressionado pelo mal e por ele instigado, era mais fácil se deixar conduzir. A iconoclastia que durante toda a vida lhe esteve a serviço do crime o fez tomar o caminho oposto, e com isto, em circunstâncias pouco dignas e desfavoráveis, Markheim se redime. No conto, o assassinato e suas consequências, narrados com riqueza de detalhes, serviram como pretexto para um exame mais largo e profundo acerca da condição humana, o que, por outro lado, não o transforma em outra coisa, é ainda um relato policial. Tais características fizeram deste conto um dos preferidos de Borges.

domingo, 8 de agosto de 2010

O CÃO DOS BASKERVILLES


Péssima adaptação para os quadrinhos do célebre romance de Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930). Os inimigos das HQs vão adorar, pois é com trabalhos assim que se afirma a supremacia da literatura sobre o gênero. O autor, Martin Powell, favoreceu tanto a linguagem ágil dos quadrinhos em detrimento do texto, que a investigação de Sherlock Holmes se diluiu, ficando praticamente ausente. E o leitor atento se pergunta, ao fim da leitura, se a fama do detetive procede mesmo, afinal de contas ele não faz quase nada. Outro aspecto negativo é o desenho de Daniel Perez, indeciso entre uma representação ocidental do século XIX ou oriental-contemporânea, sob influência dos mangás. Os personagens mais velhos parecem arrancados de gibis antigos, e os mais jovens, recém-saídos de um show de rock, com narizes afilados, olhos graúdos e cabelos espetados. A editora On Line também deixa a desejar, pois logo na capa estampa errado o nome do roteirista: Martin "Powlel". O auge, no entanto, com o perdão do paradoxo, é esta fala: "É a vez 'de o' vilão 'de ser' caçado". Bastaria o simples e funcional: "Chegou a vez de caçar o vilão". Ou, se quiséssemos apenas corrigir os erros: "É a vez do vilão ser caçado". Por fim essa pérola, na seção de informações sobre o autor e os adaptadores: "Antes de sua morte em 7 de julho, em 1930, Conan Doyle havia escrito um total de 56 histórias 'sobre' o detetive". Ora, não é "sobre" o detetive, é "com" o detetive. Enganam-se aqueles que acham que não há semântica nas preposições. Entre as muitas adaptações de obras literárias para os quadrinhos, tendência que tem se intensificado nos últimos anos, essa é de fato a pior. Lamentável, pois o público ledor visado é, ao que parece, o mais jovem, em formação.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

PERSEGUIDO

O primeiro livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza tendo o delegado Espinosa como personagem, O silêncio da chuva, recebeu os prêmios Nestlé e Jabuti, manipulando desde já como mestre as "regras" e estilos do gênero, aliando a aventura e o suspense com uma análise aguda da realidade do Rio de Janeiro e, por conseguinte, do Brasil. Achados e perdidos, Vento sudoeste e Uma janela em Copacabana, continuaram com o mesmo ímpeto e qualidade.
Em Perseguido, porém, Garcia-Roza realiza um passo a mais. Sem favor nenhum, é seu melhor livro e uma das melhores obras de suspense psicológico!
O Dr. Artur Nesse é um psiquiatra de um hospital universitário que está no início do tratamento de um novo paciente. De imediato, somos confrontados com o fato, que o doutor vai percebendo aos poucos, de que o rapaz possui algo dentro de si bem diferente dos demais pacientes. Há algum fator que liga a vida de Isidoro Cruz, o paciente que se diz chamar na verdade Jonas, ao médico. Não possui nenhuma resposta objetiva a suas perguntas e, embora faça questão de se tratar com ele, nunca lhe diz a que veio. Insidiosamente, vai desequilibrando a harmonia pessoal, psicológica e familiar do doutor, mistura-se com sua vida íntima e começa a namorar sua filha, sabe-se lá com que verdadeiros intuitos.
À primeira vista, parece que estamos diante de um repeteco dos roteiros de filmes. Já vimos isso várias vezes. No entanto, o labirinto psicológico a que nos conduz Garcia-Roza é profundo e inusitado. Ele brinca com nossas expectativas, zomba de nossas conceituações primitivas, alargando os termos do romance policial, a ponto de não sabermos se realmente acontece o tal assassinato. Não sabemos quem é o assassino, por certo, mas na verdade não sabemos sequer se podemos denominar alguém de "assassino"! A loucura, a morte e a paranóia atingem ao doutor, sua mulher, suas filhas, mas onde está a premeditação, quem está planejando tudo? Quem é o verdadeiro louco, o assassino, Nesse ou Jonas?
Nada mais pode ser dito. Em um dos finais mais instigantes que conheço, ficaremos como o delegado Espinosa, diante do fato concreto da morte e da tragédia, mas sem sabermos sequer como começar a entender o que está acontecendo.

CLAUDINEI VIEIRA, UM INFILTRADO.

domingo, 25 de abril de 2010

MESTRE DE FUGAS

De vez em quando lemos um romance policial que não se parece com nenhum outro. É o caso de Piloto de fuga (The getaway man), de Andrew Vachss. A história de Eddie é contada em ritmo e tom de fábula, desde seus dias de delinquência juvenil até a época em que ele se torna um motorista profissional de quadrilhas: o cara que fica no carro, com o motor ligado, à espera dos companheiros que assaltam, para fugir. Neste sentido, ele passa pela "educação primária", pelo "segundo grau", pela "graduação", "mestrado", até atingir o estágio de "doutoramento", quando começa a colaborar para o aperfeiçoamento de sua profissão, com novas ideias, novos métodos e práticas. A rigor, o romance não tem uma trama, o que pode frustrar e desestimular muitos leitores do gênero. Parece mais um livro das memórias de um bandido que, aposentado, resolve contar sua história, dos primeiros dias àquele momento que significou, para ele, o ápice de sua carreira. É, portanto, um romance policial de ação: os bandidos estão em primeiro plano e só eles importam. Policiais e juízes, sempre esvaziados de qualquer psicologismo, são quase autômatos, encarregados apenas de prender e condenar. O narrador parece, com isso, querer afirmar que as verdadeiras pessoas, as mais humanas e complexas, são os bandidos. É nesse cenário onírico e sem contornos, nessa realidade opaca e definida com um mínimo de recursos, através de uma escrita direta e elíptica, que Eddie "trabalha", se envolve ingenuamente com três mulheres, adquire gosto pelo cinema (em especial, filmes sobre motoristas e carros em fuga) e projeta sua aposentadoria. Mas algo inesperado acontece... E a questão que se coloca não é se ele, mestre de fugas, vai conseguir escapar, mas "como" vai escapar e "com o quê", pois, uma vez que a história é narrada em primeira pessoa, não resta dúvida de que ele sobreviveu. Ou está gozando dos benefícios que a riqueza proporciona, livre do trabalho e do assédio da polícia, a ponto de escrever sobre si mesmo e suas experiências, ou apodrecendo na cadeia, com todo o tempo do mundo para relembrar sua vida.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

GEORGES SIMENON

Como Maigret, seu mais famoso personagem, Georges Simenon era em si uma figura ímpar. Nascido em 1903 na Bélgica, foi para a França e se tornou um dos maiores escritores de todos os tempos. Construiu sua carreira de forma determinada, planejada, dirigida. Consciente da necessidade de criar um estilo e uma arte particulares, durante vários anos "treinou", escrevendo centenas de livrinhos obscuros de vendagem imediata, o que garantia sua sobrevivência e o obrigava a testar seus limites. Nesta época, utilizou dezenas de pseudônimos, sendo os mais freqüentes Georges Sim e Jean du Perry. Quando sentiu que estava preparado, deixou os pseudônimos e organizou O lançamento.
Foi numa sexta-feira, 20 de fevereiro de 1931, em Montparnasse, coração de Paris. Festa para o lançamento de dois romances de um novo detetive, anunciada como a Noitada Carcerária. Simenon confeccionara e espalhara pela cidade milhares de cartões postais, com frases instigantes retiradas das obras. Os "convites" eram fichas de intimação judicial com o nome do indiciado, isto é, convidado. A decoração do salão era sistemática: algemas, mãos ensanguentadas, corpos decapitados. Os porteiros estavam à caráter: uma prostituta, um cafetão e um açougueiro com um facão manchado de sangue. Pierre Assouline, um dos biógrafos de Simenon, conta que, para entrar, os convidados ainda eram obrigados a preencher uma ficha e deixar as impressões digitais. A festa foi um sucesso estrondoso.
Georges Simenon está por inteiro neste episódio. Misto de showman com escritor clássico, mexendo com temas perenes e eternos da literatura mundial, ferrenho defensor dos rendimentos que o tornaram um dos homens mais ricos de sua época e uma verdadeira usina de produção literária: escrevia com uma velocidade, quantidade e qualidade impressionantes. Escrevia romances em uma semana e publicava vários por ano. Ao final de sua vida, deixou por volta de quatrocentos livros escritos, sendo que destes "somente" setenta e cinco eram de Maigret. Foi traduzido para mais de cinquenta línguas, vendeu mais de quinhentos milhões de exemplares, foi transposto para o cinema, televisão, teatro e quadrinhos.
Maigret, portanto, mais do que um simples personagem de literatura, faz parte do patrimônio cultural da humanidade.


CLAUDINEI VIEIRA, um infiltrado, é contista, com incursões também pelo relato policial. Publicou Desconcerto (São Paulo: Demônio Negro, 2008).

domingo, 18 de abril de 2010

UM OUTRO MAIGRET

Em Maigret se diverte (Maigret s'amuse), Simenon, fazendo jus à fama de virtuose, promove uma inversão: o comissário Maigret está de férias, mas não sai de Paris; nesse ínterim, um terrível crime acontece, e ele resolve acompanhá-lo pelos jornais, incógnito. Esse deslocamento permite que experimente o outro lado da investigação, o ponto de vista das pessoas comuns, que, nos anos 1950 muito mais que atualmente, compravam os jornais para acompanhar o andamento das investigações policiais, como se estivessem diante de um folhetim ou de uma série de cinema, gêneros que em nossa época se converteram nas telenovelas e nos seriados de tevê, apesar do próprio Simenon afirmar que "a gente nunca pode acreditar no que dizem os jornais". E, como um fã fervoroso, Maigret se irrita, faz conjecturas, não se contém de expectativa por novas notícias e chega a escrever mensagens anônimas aos seus colegas da polícia encarregados da investigação. O desfecho, definitivamente um dos mais originais que Simenon imaginou, é quase um hino à amizade e à colaboração mútua entre policiais e colegas de trabalho, não importando quem é o chefe e quem é o subordinado. Publicado em 1957, Maigret se diverte é um excelente exercício de ponto de vista e, sem dúvida, um dos mais criativos romances com o comissário. Eu, que já havia feito a minha lista com meus 10 livros preferidos da série Maigret, tive que excluir um para acrescentar este, uma obra-prima de virtuosismo e imaginação. Imperdível!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O SOL POR TESTEMUNHA


Adaptação livre do romance policial O talentoso Ripley (1955), de Patricia Highsmith, o filme O sol por testemunha (1959), dirigido por René Clément, promove no espectador um deslocamento e uma subversão: o ponto de vista é o de um assassino, e estranhamente não o repudiamos. Tom Ripley (Alain Delon) faz um acordo com um milionário, que deseja o filho, Philippe Greenleaf (Maurice Ronet), de volta aos EUA. Ripley aceita a missão em troca de uma generosa quantia. Parte, assim, para a Itália, onde Philippe vive com a namorada, Marge (Marie Laforêt). Philippe é um típico playboy, que não tem muitas preocupações, a não ser a de gastar dinheiro e curtir a vida. Ripley, por sua vez, é um jovem pobre, mas com inúmeras habilidades, como, por exemplo, o talento em imitar a voz e os gestos de uma pessoa, bem como o de falsificar assinaturas. Philippe apenas tolera Ripley enquanto este o serve como um brinquedo, enquanto o diverte. Finda a brincadeira, é preciso colocá-lo em seu devido lugar. O tempo todo Philippe humilha o "amigo", chegando ao ponto de deixá-lo, por várias horas, exilado num bote amarrado ao barco em que estavam, sob um sol escaldante, causando-lhe forte insolação. Ripley, cínico e com a fina ironia que lhe é peculiar, finge não se importar com isso. No entanto, como já invejava Philippe, sua fortuna e sua namorada, vê neste fato a justificativa perfeita para o plano que tinha arquitetado: matar Philippe. E o faz tendo o sol mediterrâneo, às suas costas, como a única testemunha. Em lugar da escuridão da noite, o sol inclemente, quase branco de tão intenso: uma quebra de regra do que se convencionou chamar de cenário ideal para um filme noir. Ripley assume, então, a identidade de Philippe, toma posse dos seus bens e, pouco a pouco, conquista sua namorada. Tudo perfeito, se não fosse por um detalhe: ter deixado — sem querer, é claro — um vestígio do crime: o corpo de Philippe, emaranhado ao casco do navio, e que será descoberto no desfecho do filme. Na referida sequência, Tom Ripley está na praia e é chamado para atender a um telefonema, sem saber que policiais o esperam. Não é necessário explicar o que vai acontecer depois disso. O espectador já sabe. Por isso, o desenlace é apenas sugerido. Sugerido, pois Ripley, destro e escorregadio, é capaz também de se esgueirar da polícia... Portanto, o final é aberto. Além de uma envolvente história policial, O sol por testemunha conta com uma belíssima fotografia e excelentes atuações, com destaque para o ator francês Alain Delon. E acontece com o espectador uma estranha transformação ao assistir a este filme: criamos uma forte empatia com o criminoso, não conseguimos sentir raiva de Tom Ripley. Contemplamos seus atos até com certo pesar, sem dúvida, mas sem detestá-lo — condescendentes, talvez devido à sua beleza e ao seu charme, que também são de Alain Delon. É, talvez.

LIDIANE NUNES, uma infiltrada.

domingo, 22 de novembro de 2009

AGÊNCIA No.1 DE MULHERES DETETIVES

Talvez seja um lugar-comum dizer o quanto o formato do romance policial é maleável o suficiente para incluir qualquer espécie de discussão, através de suas regras aparentemente simplistas (do crime cometido, da caça ao criminoso, do detetive astuto etc.). Assumo o lugar-comum e o repito, pois ultimamente ele tem sido bem alargado.
As possibilidades parecem ser infinitas. As misturas também: podemos lembrar, assim rapidamente, de alguns clássicos: Rex Stout (romance policial e humor), Ross Macdonald (romance policial, discussão social e conflito de gerações), Harry Kemelman (com um rabino como detetive!), o que já havia sido experimentado por G. K. Chesterton, com o seu Padre Brown. As novas gerações de romancistas policiais têm levado ao extremo as mais recentes tendências socioeconômicas mundiais, como a “absoluta urbanização”, a globalização feroz, a violência (física ou psicossocial), a miséria, a corrupção política e institucional. Se o romance policial é uma forma ou fôrma, está servindo muito bem para caracterizar a humanidade atual. Os modernos James Ellroy, James Lee Burke, o nosso brasileiríssimo Alfredo Garcia-Roza (ambientando suas histórias nas ruas do Rio de janeiro), por exemplo, estão dando conta do recado: refletem, discutem, pensam.
Por outro lado, o “modelo” policial está servindo muito bem para algumas experiências muito interessantes e para a apresentação de alguns novos lugares com suas visões especialmente particulares: o marselhês Jean-Claude Izzo, o sul-africano Henning Mankell, o tcheco Josef Skvorecky, a chilena Marcela Serrano. E, se por acaso, há um certo perigo de exotismo barato, isso tem sido superado por uma característica geral (pelo menos, entre os autores que estou citando): a excelência dos textos.
O Agência No. 1 De Mulheres Detetives, de Alexander McCall Smith, tinha tudo para ser um simples livro exótico, a começar pela ambientação: a pequena e provinciana cidade africana de Gaborone, em Botswana, antigo Protetorado de Bechuanalândia. Botswana é quase que uma exceção no grande painel dos problemas que assolam os países africanos, embora ao mesmo tempo seja representativo dos seus enormes contrastes: enquanto por um lado, Botsuana apresenta um dos índices mais tranqüilos de estabilidade econômica e política, por outro lado é justamente o lugar de maior incidência de casos de AIDS na África e, consequentemente, do mundo.
O "exotismo" poderia continuar pela sua história: a gorda e independente Mma Ramotswe (Mma é o tratamento local para uma mulher; seria uma espécie de "Madame", "Senhora") decide fundar seu próprio negócio com a venda do pecúlio herdado do seu pai, algumas cabeças de gado acumuladas durante a vida. Como o gado é um bom indicativo na escala social, principalmente se estiver com boa saúde, ela consegue um bom preço. Compra uma casa (outro bom indicativo social) e, ao invés de abrir uma loja de roupa ou uma oficina, decide abrir uma agência de detetive. Vejamos bem: não há, nunca houve nenhuma espécie de detetive particular na região (ou, até onde podemos saber, no País), muito menos dirigida e assumida por uma mulher. De tal forma, que nem mesmo ela sabe que tipo de trabalho pode acabar pegando. E seu único auxílio teórico é um livro de um curso de detetive por correspondência e que, na prática, se revela bem inútil.
O que poderia se tornar um romance satírico ou até mesmo infantilóide, se transforma nas mãos de Alexander McCall Smith em uma deliciosa crônica de costumes. O autor consegue, com uma escrita simples e direta, transmitir um bom humor saudável em um perfeito equilíbrio de situações e temas delicados e espinhosos. Seus personagens são tão carismáticos e bem delineados que ficam em nossa memória.
É óbvio que o destaque é Mma Ramotswe. Ela esbanja simpatia, compreensão e um bom-senso invejáveis. É um bom-senso nascido de sua condição de mulher e africana num lugar onde o machismo, o moralismo (falso e hipócrita) e os preconceitos religiosos ainda imperam. Para que nasce uma mulher, se não for para casar, ter filhos e lavar a louça? Ou eventualmente trabalhar fora, se o marido estiver desempregado? Ela transita no meio desses problemas e limitações com desenvoltura e coragem. Ela conhece bem a situação, sabe onde está pisando, já foi casada, já perdeu um filho por conta das surras que recebeu, sabe que isso atinge todas as mulheres independentes de sua condição sociofinanceira.
Todos os outros personagens são bem apresentados, não resvalam para a caricatura nem para uma caracterização extremada. Memoráveis, por exemplo, são o próprio pai de Mma Ramotswe, Obed, que ganhou a vida como mineiro nas minas de carvão na África do Sul, enquanto acumulava dinheiro para comprar gado na sua terra natal, e o Sr. J. L. B. Maketoni, mecânico e melhor amigo de Mma Ramotswe, que sonha ser seu novo marido.
Esse equilíbrio do livro é admirável. Ele não cai nem para o dramatismo nem para a comédia desbragada, e o que poderia ser uma intragável salada africana é coerente e suave como o chá de “rooibos” tomado por Mma Romatswe e sua secretária, a única funcionária da agência. Dessa forma, os "casos" podem nos levar a um crocodilo-assassino (o único assassinato do livro, aliás), à busca de um garoto desaparecido, que levanta o véu sombrio dos feiticeiros africanos ou ao desmascaramento de um médico picareta. Mas todos eles têm em comum a sensibilidade, o vislumbre de pedaços da alma humana.


CLAUDINEI VIEIRA. Contista e infiltrado recorrente deste blogue.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A SANGUE-FRIO: 50 ANOS

Era 15 de novembro de 1959, dois homens invadem a casa grande da fazenda River Valley, na cidade de Holcomb, Kansas, EUA, e matam friamente toda uma família: o senhor Herb Clutter, sua esposa Bonnie e seus dois filhos Nancy e Kenyon. Buscavam uma fortuna que não existia e que supostamente estava num cofre, ignorado pela família.
O crime chocou Holcomb, os EUA e o mundo. E chamou a atenção do escritor Truman Capote, jornalista experiente e autor de uma pequena obra-prima, levada às telas de cinema com estrondoso sucesso: a novela Bonequinha de luxo.
Capote praticamente se muda para Holcomb, onde empreende uma longa pesquisa sobre o que ocorreu e, ao fim de muitos incidentes, escreveu A sangue-frio, um dos mais importantes romances-reportagem já escritos, se não o maior, mais bem-acabado, uma verdadeira obra de arte literária e, também, um documento histórico-jornalístico de uma terrível chacina.
Os protagonistas do livro são exatamente os dois assassinos: Perry Smith e Dick Hickock. O cotidiano de ambos, seus passos depois da matança, suas famílias, o que eles pensam sobre o que fizeram e o que acham que vai ocorrer, quando forem capturados. Os Clutter também são examinados ao olhar atento de um escritor que não perde nenhum detalhe. Os pais, os dois filhos, seus sonhos interrompidos, os amigos e parentes, o dia-a-dia traquilo e pacato abalado de repente por dois estranhos na noite...
A investigação policial também é acompanhada passo a passo, desde as primeiras cenas do crime até a execução dos assassinos, num dos maiores exemplos de virtuosismo narrativo de que se tem notícia. Sem parecer artificioso, Capote passa com desenvoltura de um foco dramático a outro — a família, os criminosos, os habitantes da cidade, a polícia —, mostrando que uma boa história flui naturalmente: basta que o escritor domine sua matéria, não pense em se exibir e saiba equilibrar estilo com informação, estética com funcionalidade.
Elegante, fluido, artístico, poético, cruel e inesquecível. Longe de ser o óbvio relato de um crime
bestial, A sangue-frio constitui o monumento de um tempo e um lugar, abalados ambos pela atitude impensada de dois monstros, que fizeram de uma determinada noite de novembro de 1959 uma inesperada pintura de sangue e palavras.

domingo, 8 de novembro de 2009

MÚSICA PARA OS OLHOS

Para os apreciadores de jazz, cinema noir e literatura policial, este CD é, obviamente, um sonho. Jazz at the movies band é a banda; White heat: film noir, o disco, lançado nos EUA em 1994. Numa ideia genial, o sexteto formado por Bill Cunliffe, Mark Portman, Matt Harris, Roberto Valle, Bernie Dresel e Brad Dutz reuniu 13 dos maiores temas musicais do cinema noir e, com o apoio de músicos adicionais, simplesmente arrasou. Os filmes e as canções são: This gun for hire (dirigido por Frank Tuttle, 1942), The bad and the beautiful (Vincent Minnelli, 1952), White heat (Raoul Walsh, 1949), Double indemnity (Billy Wilder, 1944), Touch of evil (Orson Welles, 1958), Key largo (John Huston, 1948), Laura (Otto Preminger, 1944), The lost weekend (Billy Wilder, 1945), The postman always rings twince (Tay Garnett, 1946), The asphalt jungle (John Huston, 1950), The big sleep (Howard Hawks, 1946), The strange love of Martha Ivers (Lewis Milestone, 1946), The naked city (Jules Dassin, 1948). Um CD que é uma obra-prima, como muitos dos filmes aqui presentes, entre os quais Dupla indenização, A marca da maldade, O destino bate à sua porta, O segredo das joias e O sono eterno, alguns baseados em romances célebres, de escritores não menos célebres, como Raymond Chandler, James M. Cain, Vera Caspary (autora de Laura) e Whit Masterson (autor de A marca da maldade). Bem, prepara aí o martini (bem seco) ou um vinho, liga a "vitrola" e dispara. Boa música para os ouvidos e também para os olhos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

UM KILLER SENTIMENTAL

É inquestionável que o primeiro "romance" policial da literatura ocidental é a tragédia Rei-Édipo, de Sófocles. Porque o incesto era um crime grave na Grécia antiga, Édipo se pune gravemente, furando os próprios olhos. Mas o que resta a sociedades cujas leis não são levadas a sério e cujos criminosos raramente são punidos gravemente, a não ser que sejam pobres, um rosto anônimo na multidão? Resta a ironia, a sátira, a blague. É com esses recursos que o escritor chileno Luis Sepúlveda escreve suas duas novelinhas policiais, reunidas no volume: Diário de um killer sentimental, seguido de Jacaré (Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2006). A peça mais importante do conjunto é sem dúvida o primeiro relato: história de um matador profissional que age em escala mundial. Residente em Paris, ele sai para matar na Espanha, na Alemanha, nos EUA e em outros países, sempre contratado por telefone, numa linguagem em código que joga com as possibilidades do jargão comercial. A vítima é sempre um produto. Fiquei pensando no meu humilde matador Pio Gatilho, protagonista de muitos dos meus contos, e que age nas cercanias de Salvador, BA, quando muito noutra cidade do Estado. Ele não passa de um matador municipal que às vezes chega à escala estadual... Já o seu similar chileno, ele atingiu o ápice e, enquanto mata, passeia pelos países, conhece novas cidades, faz turismo involuntário, ouve outros idiomas, expõe-se a novos climas e tem gratificantes experiências amorosas. É uma matador em escala maior, candidato a um possível Prêmio Nobel por folha de serviços. O que Sepúlveda parece nos dizer, metaforicamente, é que todas as nações matam por encomenda, e todos os povos são um mesmo povo. Nesse aspecto, não há Primeiro nem Terceiro mundos. Somos todos iguais. Pois o Killer Sentimental, de ficha irrepreensível, qualificado, eficaz e que jamais falhou numa missão, está abalado emocionalmente por um caso amoroso que aparentemente chegou ao fim e, afinal, falha. Outra ironia: nada pode parar aquela fria máquina humana de matar, exceto o amor, o mais velho dos sentimentos humanos. Nem o medo da morte, nem o temor de ser apanhado, nem a certeza de que, neste caso, as leis se fariam cumprir (quando não para dar hipocritamente exemplo e salvar as aparências), nada disso é o bastante. Só o amor, e é também o amor que vai redimi-lo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

MAIGRET

Maigret é alto, troncudo, de ombros largos, está sempre com um cachimbo entre os lábios, e um enorme sobretudo escuro, que são como uma marca registrada. Quase nunca perde a calma (embora, quando perde, seja algo digno de se ver), típica de sua origem humilde em uma província pobre do interior da França. Sua antiga pretensão fora ser médico e chegara a fazer alguns anos de faculdade, quando seu pai morreu, e ele precisou de uma profissão que lhe permitisse um rendimento imediato. Por isso, entrou para a PJ, a Polícia Judiciária, como é conhecido o corpo policial de Paris. Inteligente, perspicaz, mesmo que com uma enorme timidez, destacou-se rápido. Os anos de rua lhe permitiram conhecer como ninguém os becos parisienses e seus habitantes: prostitutas, pequenos comerciantes, hoteleiros, mecânicos, os bares, as boates, as pensões, os relojoeiros, banqueiros, Ministros de Estado, os solitários e os bon-vivants, os pequenos e os grandes contrafeitores, as pequenas e as grandes paixões dos seres humanos. E é isso o que mais lhe interessa: além das pistas eventuais e toscas, as pegadas e os álibis (que sempre precisam e são checados, sem dúvida), o que mais lhe importa é conhecer as atitudes, os pensamentos, seus apetites, as suas motivações internas para o crime.
Nada de psicologismos baratos ou interpretações psiquiátricas, nada disso. Maigret vai atrás dos pequenos hábitos, do cotidiano, do usual, do costumeiro. Gosta de se sentar na mesma cadeira que a vitima costumava se sentar, tomar dos mesmos aperitivos, impregnar-se do clima da casa onde ela vivia. "Clima", aliás, é uma palavra muitas vezes associada aos livros de Maigret, de uma forma talvez até que meio abusada, mas creio que bem válida. Ele não se preocupa em fazer deduções, tirar grandes teorias. Ele não deduz, sente. Ao final do caso, não sabemos somente quem foi o assassino ou as circunstancias que o levaram ao crime. Ficamos conhecendo, sobretudo, um pouco mais do próprio ser humano. Ou, em outras palavras, de nós mesmos.
Criado em 1931 por Simenon, o inspetor Maigret foi um divisor de águas na revolução que estava se processando na literatura policial. Finalmente, o detetive era um ser humano falível, que tinha dúvidas morais e preocupações existenciais. Do outro lado do oceano, nos Estados Unidos, Dashiell Hammett havia arregaçado as convenções do gênero, ao retratar o cotidiano violento e brutal das grandes cidades, com heróis e detetives que vinham de uma realidade nua, crua, que todas as pessoas podiam constatar em seu próprio dia-a-dia. Georges Simenon, escritor e jornalista belga radicado na França, por um ângulo completamente diferente, completava o trabalho, e acrescentava uma dimensão artística que nunca havia sido vista antes. Na verdade, apesar do imediato e estrondoso sucesso que o acompanhou desde sua estréia, Maigret conseguia deixar perplexos tanto aos amantes do gênero policial (onde o detetive super-inteligente, charmoso e infalível? onde o supervilão? os enredos mirabolantes, as histórias fantásticas? todos substituídos por hoteleiros, barqueiros, velhos aposentados, seres comuns), quanto os cultores das "belas-letras", um público para quem o romance policial era sinônimo de literatura rasteira, rasa, "popular", de péssima qualidade. Simenon conseguia o que parecia impossível: misturava o enredo policial com alta qualidade literária, o que demorou muito para ser reconhecido.


CLAUDINEI VIEIRA, um infiltrado, é contista. Seu conto ÔNIBUS-IA foi premiado e publicado em caderno especial de O Estado de São Paulo, em janeiro de 2003.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

ZODÍACO


O filme Zodíaco, David Fincher, é tão bom quanto seu filme mais célebre: Seven. Lançado em 2007, conta a história verídica de um criminoso em série, que se identifica como Zodíaco e manda cartas com mensagens codificadas para a imprensa, assumindo os brutais assassinatos e anunciando outros. No entanto, a narrativa não se detém apenas nos crimes — que não seguem um padrão — ou no irônico criminoso, pelo contrário: o foco maior é para aqueles que se dedicam à investigação das mortes. Chamam a atenção, por exemplo, a desilusão do detetive David Toschi, depois de anos à procura do famigerado Zodíaco, e a enorme renúncia que os policiais precisam adotar em relação à vida familiar, na tentativa de desvendar o enigma. Não é de admirar que muitos desistam dessa área, a investigação de homicídios, e migrem para outra, como fez o personagem Armstrong, companheiro de Toschi. O filme prova, também, que na vida tudo é relativo. Nem sempre a polícia é a mais qualificada para encontrar um assassino — um simples cartunista foi mais longe na investigação que os policiais — e, às vezes, a ligação dos fatos, a dedução e até mesmo a intuição são as únicas provas, na falta de evidências concretas. Mas, quando não se tem certeza, uma prova incontestável, a impunidade continua, e o criminoso permanece em liberdade, praticando seu macabro esporte: caçar o próprio homem. Nada surpreendente, afinal de contas o homem é “o animal mais perigoso”. Na cena em que Toschi vai interrogar Leigh — o suposto assassino — e vê que ele usa botas iguais as que produziram as marcas encontradas no local de um dos crimes e o relógio, da marca Zodíaco, que inspirou o epíteto do criminoso, torcemos para que Toschi o prenda ali mesmo. No entanto, não é assim que as coisas funcionam. Enquanto se prende um ladrão de galinhas sem muito o interrogar, mesmo sendo só galinhas, um assassino fica à solta por falta de provas. Quanto à forma, apesar de longo, o filme prende o espectador até o final, não apenas pelo suspense, mas por tratar de um tema, acima de tudo, humano e, sem dúvida, pela pitada de ceticismo, sarcasmo e humor, aspectos comuns ao gênero. E há ainda a fotografia, a bela fotografia noturna que dialoga com o grandes filmes do gênero noir, recriando seu palco predileto, as noites, que, de tão abertas à experiência humana, são quase um “segundo mundo”.

Título original: Zodiac. Direção: David Fincher. Roteiro: James Vanderbilt, baseado no livro Zodiac, de Robert Graysmith. Ano e país de produção: 2007, EUA. Fotografia e duração: colorido, 158'. Atores principais: Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Jake Gyllenhaal e Chloë Sevigny.

LIDIANE NUNES, uma infiltrada.

domingo, 1 de novembro de 2009

NUNCA AOS DOMINGOS

Em cem capítulos curtos (o mais longo tem sete linhas; o mais curto, uma palavra), o escritor mexicano Francisco Hinojosa escreve uma novela policial irônica e original. Cada capítulo compreende uma página e, como num mosaico ou quebra-cabeça, compõe o contidiano de um homem frio e insensível, espécie de Mersault das Américas, que vai matar por tédio familiar, ódio aos domingos e náusea pelo gênero humano. Reduzida ao seu esqueleto (o capítulo 1 se resume a "A gorda do andar de cima me dá náuseas", e o 38, a "Depois falamos sobre a vida"), esta novela é uma paródia dos tradicionais romances policiais anglo-americanos e uma ironia com a forma que estes em geral adotam: muitas páginas de descrição de roupas e ambientes, ênfase exagerada em fatos secundários e dispensáveis, policiais maníacos e sarcásticos, e um criminoso que sempre mata por algum motivo (dinheiro ou loucura), exceto porque a existência é vazia e sem sentido, condição que, no relato de Hinojosa, atinge seu ápice sempre aos domingos, como uma confirmação da sombria conclusão de Cioran: "A única função do amor é nos ajudar a suportar as tardes dominicais, cruéis e incomensuráveis, que nos ferem para o resto da semana ― e para a eternidade". A essa palavra assustadora, ao mesmo tempo dia de descanso e vazio existencial, se reduz o centésimo capítulo, que fecha o livro: "Domingo". O leitor atento sabe o que acontecerá. Ao desatento resta balbuciar: "Que livro estranho!" Se não fosse estranho, não seria arte. Apenas mais um relato policial, sem qualquer atrativo.

sábado, 31 de outubro de 2009

ARTE E FUNCIONALIDADE

"Era uma manhã clara, sem poluição nem grande nevoeiro; o sol brilhava na superfície de piscina que começava do outro lado da parede de vidro do bar e se esparramava até o final do restaurante. Uma garota de maiô colante branco, com um rosto agradável, subia a escada para o trampolim. Olhei a faixa branca que havia entre o bronzeado das coxas e a roupa. Olhei-a sexualmente. Logo ela estava fora do meu ângulo de visão, cortada pela profunda caída do teto. Um momento depois eu a vi cintilar num relance. As gotas subiram a ponto de pegar o sol e formar arco-íris quase tão bonitos quanto a garota. Mas daí ela subiu a escadinha da piscina, tirou a touca branca e a sacudiu. Rebolou até uma mesinha branca e sentou-se perto de um sujeito grande de calças brancas de algodão, óculos escuros e um bronzeado tão escuro, que ele só poderia ser o sujeito encarregado de cuidar da piscina. Ele esticou a mão e deu-lhe umas pancadinhas na coxa. Ela abriu a boca como se fosse um balde, e sorriu. Meu interesse por ela terminou. Não cheguei a ouvir o riso, mas aquela abertura no rosto quando ela mostrou os dentes foi mais do que suficiente." (O longo adeus. L&PM, 2000, p. 96-7. Tradução de Flávio Moreira da Costa.)

Este é um trecho representativo da arte de Raymond Chandler. A descrição sutil de um ambiente; um ser fascinante, quase sempre uma mulher; o prazer visual que sua presença desperta; a sensualidade apenas sugerida, sem maiores voos verbais; a ironia (porque está bronzeado, o cara só pode ser o empregado encarregado da piscina) e a auto-ironia (quando mostra, pela reação do homem, que ele não é um empregado, e pela da garota que ela está com o sujeito e gosta disso) do narrador; a precisão verbal que, discretamente, apresenta um mundo específico, das classes abastadas, representado aqui pelo acúmulo de referências à cor branca, símbolo de bom-gosto e riqueza: maiô branco, faixa branca da pele da garota, touca branca, mesinha branca, sujeito de calças brancas de algodão; a poesia do mundo físico: "profunda caída do teto", "eu a vi cintilar num relance"; e humor: "rebolou até uma mesinha branca", "abriu a boca como se fosse um balde".
Este é Raymond Chandler, seu estilo e sua arte, sua técnica e sua estética. Num breve texto temos tudo o que, nele, se expressa para a funcionalidade das palavras, para o andamento sem entraves da história e também para não-ditos, sugestões, ironias, humor, precisão histórica e uma feliz e eficiente subjetividade.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O LONGO ADEUS

A crítica é quase unânime em afirmar que o único livro do gênero policial-noir capaz de se ombrear com O falcão maltês e até mesmo superá-lo é O longo adeus (The long goodbye), de Raymond Chandler. Os motivos de tal afirmação não são poucos nem gratuitos.
Primeiramente, se O falcão maltês é um romance de ardilosos mentirosos (até o falcão é uma mentira), O longo adeus é uma história de pessoas perdidas, feridas e solitárias. Segundo, se naquele célebre livro de Hammett o dinheiro move a narrativa, impulsionando as personagens em direção ao crime e à mentira, no de Chandler monetariamente todos estão satisfeitos com o que possuem (uma evidência simbólica desta condição é a nota de 5 mil dólares que o detetive Philip Marlowe encerra em seu cofre, pois não precisa gastá-la), mas, por outro lado, estão todos doloridos e desencantados.
É literalmente um romance sobre o vazio, sobre os dias marcantes de um passado que, por mais que os personagens se esforcem, não conseguem esquecer; sobre a falta de amor, a existência fútil e sem horizontes; sobre a falta de sentido humano num ambiente de riqueza, dissolução e promiscuidade. Nesse sentido, a trama desloca-se da sua essência policial para o núcleo da própria condição humana e suas perdas ─ físicas ou psicológicas. E as mortes que ocorrem (e não são poucas) são atos antes de desespero que de cobiça ou capricho criminoso. O crime é uma consequência da vida, das relações, das dores. Todos os personagens ou perderam alguma coisa ou jamais acharam o que procuravam.
Lennox perdeu metade do rosto na Guerra e também a esposa, que jamais voltou a encontrar; além disso, sua esposa atual é uma mulher com muito dinheiro e igualmente muitos homens. Eileen perdeu o único amor de sua vida e vive com um escritor bêbado, Wade, que, por sua vez, perdeu o entusiasmo criativo e pouco a pouco vai perdendo o talento. Philip Marlowe é só um “detetive barato”, quase sem clientes e que tem o estranho hábito de ajudar as pessoas em troca de nada, por um decadente altruísmo ou um sentimentalismo de chá de caridade; também é sozinho, um solitário convicto, que almoça e janta diante de uma cadeira vazia; nem secretária possui. É numa dessas noites de abandono que ele conhece Terry Lennox e dá início a um périplo de álcool, ardis, ciladas, sangue e corpos imóveis.
Um outro aspecto a se ressaltar neste romance de Chandler é o caráter de reflexão. O autor não se satisfaz em criar uma trama policial. Descreve com precisão cirúrgica os cenários, mergulha no pensamento de seus personagens, analisa-os social e psicologicamente, expõe suas virtudes e também seus defeitos. Ninguém ─ nem instituição alguma ─ passa incólume por sua pena e seu olhar. E tudo isso num estilo direto, seco, irônico, analítico e, em muitos trechos, poético. O que em Hammett é só esboço em Chandler comparece em massa de cor, formas, ângulos, sabores, odores e perspectivas. Não é por acaso que se afirma que em Chandler o policial-noir atingiu o patamar de arte. De fato ─ e podemos até sugerir que Hammett, Cain, Goodis e Chandler formam uma espécie de quarteto desta verdade. Cada um, a seu modo, fez pelo policial-noir o que somente os grandes ficcionistas fizeram pela narrativa literária em geral. Claro que o relato policial moderno não se restringe a eles: Patricia Highsmith e Georges Simenon são duas vozes
antípodas, duas correntes específicas representadas, cada uma, por um único escritor...
Chandler não chegou a tanto, mas escreveu dois ou três romances ─ e o maior deles talvez seja O longo adeus ─ que, extrapolando o gênero policial, tornaram-se eternos. Retratos de um lugar, um tempo e uma gente ─ a Califórnia dos sonhos frustrados.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A DÁLIA AZUL

A Dália Azul é uma curiosa mistura do trabalho de dois artistas fabulosos que ajudaram a moldar a cultura do século 20, temperada com uma forte dose de ironia do destino.
Os artistas são, de um lado, Raymond Chandler, romancista e contista de histórias policiais, um dos pilares para a formação e renovação da literatura contemporânea (não só policial), ao prosseguir com a revolução detonada por outro grande escritor norte-americano, Dashiell Hammett. Juntos, eles trouxeram a figura tradicional e intelectualóide do detetive cerebral (representado por Sherlock Holmes e Hercule Poirot) para a dura realidade do cotidiano urbano, feroz e violento
de nossa época. A guinada que eles proporcionaram determinou e influenciou o cinema, o teatro, a literatura e as demais artes. Em consequência, Chandler escreveu o roteiro do filme A Dália Azul para Hollywood, na década de 40.
De outro lado, Filippo Scózzari, quadrinista italiano que participou da revolução na década de 70 nas artes gráficas, na contra-cultura e nas HQs, pelas páginas da estremecedora revista Frigidaire. Nesta anárquica, anarquizante, deglutidora e vomitória metralhadora cultural, tudo cabia. Exatamente como se fosse uma geladeira, estilo Frigidaire. Portanto, a gozação já começava pelo próprio nome. Subversão era seu lema secreto (nem tão secreto, por certo). Assim, era possível encontrar “uma mistura caótica
e cínica de textos, fotos e quadrinhos a respeito da guerrilha da América Central, Devo, travestis brasileiros, William S. Borroughs, Patagônia, produção de heroína na Tailândia, Bioy Casares, Céline, rock polonês e coisas assim”. Havia um encarte inicial, chamado apropriadamente de Freezer: “uma antologia de fotos de cadáveres, vítimas fatais de atividades eróticas extremas”, conforme revela Rogério de Campos em sua apresentação da edição brasileira de A Dália Azul, pela editora Conrad.
Bueno, Filippo Scózzari teve a incumbência de retomar o roteiro escrito por Chandler e transformá-lo numa HQ, publicada, por fim, em
capítulos, pela Frigidaire.
A grande, enorme ironia disso tudo é que os dois odiaram até o mais profundo de sua alma o que fizeram.
Aliás, há mais uma ironia para “dourar” o seu ódio: tanto o filme quanto a HQ são considerados atualmente clássicos, cada um de seu lado. Talvez seja meio exagero considerar o filme lançado em 1945 como um clássico. Deixo passar. Como diz Rogério de Campos, o tempo, os especialistas e os fãs de Chandler deixaram o filme quieto e quase esquecido.

O fato crucial é que Chandler odiava Hollywood, odiava a high society californiana e cinematográfica, odiava escrever roteiros, principalmente por conta das pressões e cobranças ridículas e medíocres da indústria hollywoodiana; odiava aquele ambiente faiscante, fútil e vazio, e odiava ganhar aquele dinheiro que, em se tratando de tal lugar, significava M-U-I-T-O dinheiro. Teve que se encharcar de álcool e se guardar em regime fechado dentro de casa para escrever o roteiro de A Dália Azul. E em três semanas, pois o astro principal do filme, Alan Ladd, seria convocado pelo Exército e não poderia gravar mais, depois. Chandler suou para dar sentido a uma história que não lhe atraiu desde o começo: logo após a Segunda Guerra Mundial, o ex-soldado Jonnhy Morrison (Allan Ladd) volta afinal para casa e descobre que não só sua mulher Helen (Doris Dowling) o traía como seu filho pequeno morrera em um acidente provocado por ela, quando dirigia embriagada. Agora, Jonnhy estava desempregado, seu casamento era uma piada, não se ajustava mais à vida social, envolve-se num relacionamento complicado com a complicada Joyce (Veronica Lake) e seu melhor amigo estava com problemas mentais sérios por conta de um ferimento na cabeça. Chandler desfilava clichês e mais clichês e se complicava para dar um fecho a todas as pontas levantadas. No meio de tudo, um assassinato explode, pois é claro que deveria ter um assassinato, mortes, suspeitos e investigações, já que afinal de contas se tratava de um filme policial noir e não um drama de guerra.
Chandler xingou, esperneou e reclamou, mas a ironia foi bem mais forte: o filme foi um sucesso de público, até a crítica se resguardou sem incenso, mas também sem lascar o pau. E o roteiro chegou a ser indicado para o Oscar.
Trinta e cinco anos depois foi a vez de Scózzari. Ele pegou o roteiro, leu, considerou chato e boboca, ficou desanimado, mas engoliu em seco e foi em frente. À medida que escrevia e desenhava os capítulos, seu desânimo e impaciência foram crescendo até a exasperação. Não se conformava em trabalhar numa porcaria tão grande, monótona e besta (na sua opinião). Aos poucos foi demonstrando sua insatisfação com pequenos dardos lançados de vez em quando, saía do texto, ironizava, escrachava, proporcionava novos sentidos à história e aos personagens. Só assim suportou o ano inteiro de trabalho que durou a série, até o ponto final, onde pôde expressar todo seu ódio em um epílogo original, todo seu, e absurdamente genial e maravilhoso.
Scózzari nem suporta pensar nisso, mas sua imagem está indissoluvelmente
associada a — “grrrrr!” — Dália Azul.
Podemos ser compreensivos e até entender todos os percalços sofridos por Raymond Chandler e Filippo Scózzari. No entanto, é através de seu sofrimento que podemos, hoje, apreciar o filme (que, se não chega a ser um clássico, também não é tão ruim) e a novela gráfica, exemplo perfeito do que pode conseguir o talento e a genialidade de um artista. Azar dos autores. Sorte, muita sorte, para nós, leitores.

CLAUDINEI VIEIRA, um infiltrado, é contista e mora em São Paulo.

domingo, 25 de outubro de 2009

A CHAVE DE VIDRO

Dashiell Hammett (1894-1961), nascido em St. Mary's Country, Maryland, cresceu e foi criado na Filadélfia e em Baltimore. Abandonando os estudos aos 14 anos, passou a exercer as mais variadas e díspares profissões: foi menino de recados, jornaleiro, balconista, apontador, manobrista, operador de máquinas, estivador e, por fim, detetive, atividade que interrompeu quando convocado para a Primeira Grande Guerra, durante a qual alcançou o posto de sargento. Com a saúde afetada, perambulou por hospitais até poder retornar ao trabalho na Pinkerton's Detective Agency. Dedicando-se depois à literatura, logo conquistou brilhante êxito, tendo muitas de suas histórias imediatamente transpostas para o cinema.
Por ocasião do último conflito mundial, voltou aos campos de batalha, outra vez como sargento, servindo a maior parte do tempo nas Aleutas. Perseguido pelo macartismo, foi vítima da "caça às bruxas", falecendo pouco depois desse episódio, que lhe afetou mais ainda a saúde.
André Gide, que o leu por sugestão de André Malraux, assim como Sinclair Lewis, Robert Graves e Louis Untermeyer, entre outos intelectuais de projeção, admiravam muito os seus romances. Na verdade, Dashiell Hammett foi considerado, desde logo, um mestre indiscutível da ficção policial, não só pela estrutura das histórias, por sua prosa limpa e direta, inteiriça e econômica, como também pela caracterização, precisa, exata e ágil, da psicologia dos personagens.
Além dos enredos intrincados e intrigantes, que fascinam pelo suspense e pela ação, sem nunca, porém, ultrapassarem os limites da credibilidade, há algo de novo na literatura de Dashiell Hammett: o seu conteúdo social. É talvez o único autor desse gênero de ficção preocupado em retratar, com realismo e verdade, as mazelas da sociedade. Seus críticos acentuam mesmo que foi ele um agudo observador da corrupção e um sensível sismógrafo da subjacente violência que a toda hora solapa a vida americana.
A chave de vidro é bem um exemplo desse aspecto da obra de Dashiell Hammett. Nesse livro, ele conta a história de uma cidade dominada por uma quadrilha de gângsteres políticos. A partir do assassinato do filho de um senador, vai o romancista descrevendo como os fora-da-lei exerciam e impunham o terror e a violência. O jogador Ned Beaumont, amigo do infortunado pai e eminente cidadão, é quem vai descobrir os assassinos do jovem, enfrentando toda a sorte de perigos e ardis. As cenas que se sucedem até a elucidação do caso são duras, ásperas, brutais mesmo. Graças, porém, à eficaz comunicabilidade de Dashiell Hammett, que escrevia sobre o que conhecia, que se baseava nas suas vivências pessoais, nenhum leitor abandona o volume. Vai até o final devorando-o emocionado, chocado e esclarecido.

MARIANO TORRES, na orelha à primeira edição brasileira: Civilização Brasileira, 1970.