Nesta edição brasileira de He who hesitates, publicado com título completamente anacrônico pela Editora Expressão e Cultura, em 1974, o texto da quarta-capa chama a atenção do leitor para o protagonista, que, psicologicamente abalado, espreita o Distrito 87 e chega a seguir, pelas ruas, o detetive Steve Carella, como se quisesse confessar-lhe um crime. E o editor conclui: "A história de um estranho crime. Uma história diferente, que, de surpresa em surpresa, levará o leitor a um desfecho que você ainda não conhece no gênero policial". A primeira indagação do leitor, acostumado ou não às leituras de narrativas policiais, é sobre o porquê deste texto. Simples: o editor, diante de uma obra que, como relato policial, não segue os padrões então estabelecidos, opta por uma convocação à leitura que vai, antes de tudo, exaltar a estranheza da história. De fato, a trama deste livro é singular, mas o é apenas porque não é um relato policial de mistério ou enigma, no qual a base da narrativa consiste em seguir os meandros da investigação. He who hesitates é simplesmente um relato policial de ação: o crime acontece diante do leitor, que se torna cúmplice do protagonista. Não há detetive, não há investigação, não há caçada ao criminoso. Se alguém julga a este, é ele próprio, que entra em crise de consciência. O capítulo 5, especialmente, apresenta páginas que despertam grande interesse, por colocar face a face, num relacionamento inter-racial, numa época em que tal aspecto ainda não era um modismo, um homem branco e uma garota negra. E é dos lábios da moça que saem as grandes tiradas: "Não sei como é um homem branco encrencado. Já vi muita gente de cor nessa situação. Aliás, se a gente é de cor, vive sempre numa encrenca, desde o dia em que nasce. Mas não conheço a aparência de um homem branco numa situação dessas. Não sei como ficam seus olhos". Ou, quando ele lhe pede que olhe para ele e diga se vê encrenca dentro de seus olhos: "Não, a não ser que eu mesma seja uma". Por fim: "É claro que minha mãe pode não gostar que eu leve pra casa um homem branco. Pode mesmo pegar a cantar uma velha canção que costuma cantar desde que eu era uma criancinha mimada: Filhinha, afaste-se do homem branco; ele só quer se meter nas suas calças e roubar sua virgindade". Como em quase todos os livros de Ed McBain que decorrem no Distrito 87, e mesmo neste, em que o Distrito é apenas entrevisto pelo olhar do criminoso, a esposa do detetive Carella aparece, sempre deslumbrante e sensual: "O detetive estendeu-lhe a mão, ela a segurou, levantou o rosto e os olhos para ele, um franco e amoroso sorriso iluminando-lhe a fisionomia. Nossa! Como era bela! O cabelo era negro, os olhos, de um castanho escuro, e ela sorria para o detetive com os olhos, a boca, o rosto inteiro, e depois ficou de pé a seu lado na calçada, beijou-o rapidamente na boca, não na face ou no queixo, mas um carinhoso e repentino beijo na boca". Ao observar esta cena, o criminoso conclui que Teddy Carella "sentia-se simplesmente felicíssima por estar com seu homem" e que ele jamais fora amado desta forma.
Noir francês
A lua na sarjeta (La lune dans le caniveau, 1983), David Goodis por Jean-Jacques Beineix.
Mostrando postagens com marcador Teddy Carella. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teddy Carella. Mostrar todas as postagens
domingo, 7 de outubro de 2012
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
O VIGARISTA, DE ED MCBAIN
Neste romance, que é um dos primeiros da série do Distrito 87, a participação da esposa do detetive Steve Carella, Teddy Carella, é mais ampla e intensa, quase de protagonista. Embora seja muda e só se comunique através de sinais e bilhetes, ela é decisiva para a solução do enigma e fica, no desfecho, tête-à-tête com o assassino, que lhe diz, sarcástico, atraído por sua beleza: "Posso falar, você pode prestar atenção e eu não tenho que declamar poesias de amor. Você é sensual também. Água parada mas profunda". Além disso, é nesta aventura que Teddy Carella faz, no ombro, a primeira tatuagem de borboleta, sobre a qual, anos depois, no dia dos namorados, tatuará outra, maior, como símbolo de seu amor pelo marido. O início da trama envolve duas mulheres mortas, encontradas no rio Harb com os corpos em avançado estado de putrefação. Em poucos dias, o detetive Carella se vê diante de um assassino serial que, além de tudo, assina suas vítimas com uma tatuagem. E, diferentemente de outras mulheres sacrificadas, que em geral são fatais e sedutoras, estas não chamavam a atenção dos homens por sua beleza. Isto direciona a investigação para uma evidência crucial: de que as vítimas foram mortas por um motivo preciso e específico, talvez monetário. Como todos os romances policiais do autor, O vigarista (The con man) não se detém apenas no entrecho policial. O narrador faz digressões, expõe fatos paralelos, analisa o contexto socioeconômico, que favorece o crime e a ação dos vigaristas, e até ironiza, metalinguisticamente, com os relatos policiais: "O crime anda solto pelas ruas, e aquele era um excelente dia para se cometer um assassinato. Os vigaristas que escrevem livros policiais não poderiam escolher um dia melhor, teriam imaginado exatamente assim: Uma chuvinha fina e cortante caindo sobre o rio Harb, um céu pesado e cinzento (...). Um close mostraria de repente uma mão saindo da superfície da água, os dedos rijos e esticados". Por outro lado, a história é também uma declaração de amor do detetive Carella à sua esposa, Teddy, sempre generosamente descrita por sua beleza e sensualidade. Tal aspecto não surpreende nem um pouco o leitor de Ed McBain, por saber ele que, como dizem os críticos, o autor praticamente inventou um tipo pessoal de romance policial, ao mesmo tempo fiel à tradição e em nada parecido com nenhum outro.
Marcadores:
Distrito 87,
Ed McBain,
Ensaios e resenhas,
Escritores policiais,
Mayrant Gallo,
Personagens,
Relato Policial de Ação,
Romances,
Teddy Carella
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
SANGUE E GELO
Sangue e gelo (Ice) é comumente considerado um dos melhores romances de Ed McBain e até a sua obra-prima. A trama, tradicional, tem início com o assassinato de uma jovem dançarina loura, ao voltar para casa depois de deixar o teatro, onde se exibe na peça Fatback, sucesso da temporada. Sua morte é a primeira de muitas que vão requerer do Distrito 87 atenção total, durante a investigação. Ed McBain, que escreveu sem perder o vigor mais de 50 romances com os detetives do Distrito 87, tem um estilo único, uma mistura de Chandler com Simenon. Em muitas páginas, a investigação permanece em segundo plano, e a vida cotidiana dos detetives ganha relevo, o que acaba por conferir aos seus livros um valor que ultrapassa o simples relato policial. Em Sangue e gelo, especialmente, há o drama paralelo de uma policial cujo único trabalho na corporação é servir de isca para a detenção de estupradores e maníacos sexuais. Num arroubo de desespero e medo, ela chega a confessar, um dia, a um colega, que sonha em ser estuprada, de forma encenada, como no teatro ou no cinema... Ao passo que a trama se desenvolve, o leitor vai conhecendo os detetives e mergulhando em suas vidas, não diferentes das nossas, cheias de receios, dúvidas, traumas, sonhos frustrados e alguns raros momentos de felicidade, como o de Carella, que, no dia dos namorados, descobre que a esposa tatuou, sobre a tatuagem de borboleta que ela já possuía, uma outra borboleta, maior, simbolizando-o e sugerindo, entre eles, um amor perene e de inesgotável desejo sexual. De difícil classificação, por não constituir uma narrativa comum, e impossível de se resumir em poucas linhas, por reunir mais do que uma trama policial, Sangue e gelo proporciona uma proveitosa imersão no universo e estilo do autor, ao mesmo tempo que documenta o cotidiano das grandes metrópoles americanas, das quais a cidade, não nomeada pelo narrador, é uma gélida e legítima alegoria.
Assinar:
Postagens (Atom)


