Esta novelinha de Osman Lins é uma das mais interessantes incursões de um autor brasileiro no gênero do suspense. A trama, desde o princípio, se apresenta como um enigma, que, pelos aspectos e motivos explorados, conduz a uma experiência fantástica ou de entrecho policial. Num condomínio residencial, ocasionalmente aparecem moradores mortos em circunstâncias estranhas. A polícia não consegue desvendar as mortes, e pouco a pouco os moradores debandam do prédio, no qual resta, ao fim, um único morador, Cláudio Arantes Marinho, abandonado pela esposa e pela filha, à espera da morte. Até que, um dia, ocorre-lhe uma grande ideia: desaparecer sem deixar vestígios, livrando-se, a um só tempo, daquela situação absurda e da própria família, que impiedosamente o descartou. Mal sabia ele que, ao ter êxito, desvendaria as insólitas mortes e, de quebra, puniria o responsável. (Ler a postagem na íntegra)
Noir francês
A lua na sarjeta (La lune dans le caniveau, 1983), David Goodis por Jean-Jacques Beineix.
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domingo, 2 de março de 2014
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
VESTÍGIOS DA NUVEM DA MORTE
A obra de Sir Arthur Conan Doyle é vasta e variada.
É um erro associá-lo, terminantemente, ao personagem Sherlock Holmes e suas
aventuras de mistério policial. Conan Doyle dedicou-se também ao romance
histórico, com relativo êxito, e ainda mais freneticamente aos relatos
fantásticos e de ficção científica, dos quais uma de suas mais notáveis criações
é A nuvem da morte (The poison belt).
Grosso modo, seu argumento propõe o fim da humanidade, ameaçada de extermínio por
um gás venenoso, presente num cometa de passagem pela Terra. Deter-me na trama
implicaria revelar parte da história, o que poderia desestimular alguns
leitores mais afeitos a inícios e conclusões. Portanto, vou me ater aos
pormenores que me fizeram enxergar, neste livro, influências sobre alguns
afamados filmes de ficção científica e até de suspense. Tais evidências me obrigaram
a especular que este breve romance goza de muito mais prestígio entre os
leitores de língua inglesa do que lhe atribuem as edições brasileiras, quase
sempre destinadas ao público juvenil. Na minha edição (São Paulo: Nova
Alexandria, 1994), em tradução do escritor e editor Rodrigo Lacerda, à página
94, lê-se: “Elas tinham sido dispensadas por seus aterrorizados professores e
estavam correndo para suas casas quando o veneno agarrou-as em sua rede”. Um
leitor atento, e que aprecia o melhor do cinema mundial, há de reconhecer nesta cena a
origem de outra, de Os pássaros,
quando as crianças abandonam a escola e correm, perseguidas pelas aves. Mais
adiante, na página 98, reconhece-se na velha asmática que passou incólume pela
tragédia promovida pela nuvem a fonte de inspiração de M. Night Shyamalan no
desfecho de Sinais, ainda que indiretamente. No filme, o garoto só
sobrevive ao veneno alienígena porque também é asmático. Na mesma página, logo
a seguir, há um trecho que pode ter permanecido, em estado de suspensão, no
inconsciente dos criadores de Extermínio, dirigido por Danny Boyle: “Quando nos aproximamos do rio Tâmisa, o bloqueio nas ruas aumentou e os obstáculos
se tornaram mais espantosos. Foi com dificuldade que conseguimos atravessar a
ponte de Londres”. Por fim, na página 113, percebe-se na evocação do sono,
referido na fala de um dos personagens, o elemento norteador da trama de Cidade das sombras, de Alex Proyas. Além do mais, todo o
entrecho de A nuvem da morte parece subsistir
na construção de outro filme de Night Shyamalan, O
fim dos tempos. Neste caso, creio que a sugestão é explícita ― ou não será
uma pista o fato de que o filme se abre com nuvens, e a todo momento o vento é
evocado? A loucura que acomete os personagens e os conduz ao suicídio parece cair
do céu e, aos poucos, espalhar-se sob o efeito das correntes de ar. Conan
Doyle talvez não imaginasse o poderoso alcance que seu relato teria, e nem
talvez o escrevesse, se fosse este o propósito. Mas é evidente que seu vigor
persiste na imaginação dos leitores e, eventualmente, vem à superfície da
inspiração.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2013
CLÁSSICOS SCI-FI: AS CRÔNICAS MARCIANAS
Foram As crônicas marcianas (The martian chronicles) que revelaram o autor Ray Bradbury e definiram seu estilo, de tramas fantásticas, orientadas pela livre imaginação, e linguagem poética, aspectos que o fizeram único e singular entre os autores de ficção científica. Publicado nos EUA em 1950, As crônicas marcianas colheram elogios imediatos de Adous Huxley e Christopher Isherwood. Ao longo das décadas, a obra granjeou prestígio junto a escritores tão diversos quanto Mário Quintana, no Brasil, e Jorge Luis Borges, na Argentina, que lhe dedicou um prólogo elogioso, no qual expressa seu fascínio pela obra e ressalta o estilo do autor. E, de fato, este exemplar da literatura fantástica é uma das mais importantes obras literárias do século XX e transcende em muito seu gênero, constituindo-se num clássico da ficção americana e mundial. É, inclusive, uma obra de difícil classificação, pois pode ser avaliada como um conjunto de contos ou um romance, formado por várias histórias, e cujo assunto seria a suposta colonização de Marte pelos terráqueos. Algumas histórias, por sua beleza poética e conteúdo fantástico, seduzem os leitores mais exigentes, enquanto outras, mais movimentadas, encerram os leitores numa espécie de vórtice que só se detém com o desfecho. A obra é, ainda, uma profunda reflexão sobre o protagonismo do ser humano no Universo, caso ele, algum dia, alcançasse outros planetas e chegasse a colonizá-los. Em suma, Marte só é Marte para nós. Um "marciano", se existisse, só seria marciano para nós e, certamente, teria dado outro nome ao seu planeta, ao passo que o nosso, para ele, também não se chamaria Terra. Portanto, quando os terráqueos chegam a Marte, deparam-se com "o outro" como ele verdadeiramente é, muito diferente de como a imaginação do homem o moldou e suas expectativas de expansão espacial o consagraram. No curso das aventuras de As crônicas marcianas, os terráqueos se alarmam duplamente: com o que não encontram e com o que veem e lhes é por demais estranho. A melhor edição brasileira é a da Editora Globo, de 2005, com o Prólogo de Borges e um prefácio assinado por Donizete Galvão. A tradução é de Ana Ban, reproduzida pela editora, em formato de bolso com propósitos didáticos, no ano seguinte.
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