O primeiro livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza tendo o delegado Espinosa como personagem, O silêncio da chuva, recebeu os prêmios Nestlé e Jabuti, manipulando desde já como mestre as "regras" e estilos do gênero, aliando a aventura e o suspense com uma análise aguda da realidade do Rio de Janeiro e, por conseguinte, do Brasil. Achados e perdidos, Vento sudoeste e Uma janela em Copacabana, continuaram com o mesmo ímpeto e qualidade. Em Perseguido, porém, Garcia-Roza realiza um passo a mais. Sem favor nenhum, é seu melhor livro e uma das melhores obras de suspense psicológico!
O Dr. Artur Nesse é um psiquiatra de um hospital universitário que está no início do tratamento de um novo paciente. De imediato, somos confrontados com o fato, que o doutor vai percebendo aos poucos, de que o rapaz possui algo dentro de si bem diferente dos demais pacientes. Há algum fator que liga a vida de Isidoro Cruz, o paciente que se diz chamar na verdade Jonas, ao médico. Não possui nenhuma resposta objetiva a suas perguntas e, embora faça questão de se tratar com ele, nunca lhe diz a que veio. Insidiosamente, vai desequilibrando a harmonia pessoal, psicológica e familiar do doutor, mistura-se com sua vida íntima e começa a namorar sua filha, sabe-se lá com que verdadeiros intuitos.
À primeira vista, parece que estamos diante de um repeteco dos roteiros de filmes. Já vimos isso várias vezes. No entanto, o labirinto psicológico a que nos conduz Garcia-Roza é profundo e inusitado. Ele brinca com nossas expectativas, zomba de nossas conceituações primitivas, alargando os termos do romance policial, a ponto de não sabermos se realmente acontece o tal assassinato. Não sabemos quem é o assassino, por certo, mas na verdade não sabemos sequer se podemos denominar alguém de "assassino"! A loucura, a morte e a paranóia atingem ao doutor, sua mulher, suas filhas, mas onde está a premeditação, quem está planejando tudo? Quem é o verdadeiro louco, o assassino, Nesse ou Jonas?
Nada mais pode ser dito. Em um dos finais mais instigantes que conheço, ficaremos como o delegado Espinosa, diante do fato concreto da morte e da tragédia, mas sem sabermos sequer como começar a entender o que está acontecendo.
CLAUDINEI VIEIRA, UM INFILTRADO.



Adaptação livre do romance
policial O talentoso Ripley (1955), de Patricia Highsmith, o filme O
sol por testemunha (1959), dirigido por René Clément, promove no espectador
um deslocamento e uma subversão: o ponto de vista é o de um assassino, e
estranhamente não o repudiamos. Tom Ripley (Alain Delon) faz um acordo com um
milionário, que deseja o filho, Philippe Greenleaf (Maurice Ronet), de volta
aos EUA. Ripley aceita a missão em troca de uma generosa quantia. Parte, assim,
para a Itália, onde Philippe vive com a namorada, Marge (Marie Laforêt).
Philippe é um típico playboy, que não tem muitas preocupações, a não ser
a de gastar dinheiro e curtir a vida. Ripley, por sua vez, é um jovem pobre,
mas com inúmeras habilidades, como, por exemplo, o talento em imitar a
voz e os gestos de uma pessoa, bem como o de falsificar assinaturas. Philippe
apenas tolera Ripley enquanto este o serve como um brinquedo, enquanto o
diverte. Finda a brincadeira, é preciso colocá-lo em seu devido lugar. O tempo
todo Philippe humilha o "amigo", chegando ao ponto de deixá-lo, por
várias horas, exilado num bote amarrado ao barco em que estavam, sob um sol
escaldante, causando-lhe forte insolação. Ripley, cínico e com a fina ironia que
lhe é peculiar, finge não se importar com isso. No entanto, como já invejava
Philippe, sua fortuna e sua namorada, vê neste fato a justificativa perfeita
para o plano que tinha arquitetado: matar Philippe. E o faz tendo o sol
mediterrâneo, às suas costas, como a única testemunha. Em lugar da escuridão da
noite, o sol inclemente, quase branco de tão intenso: uma quebra de regra do
que se convencionou chamar de cenário ideal para um filme noir. Ripley
assume, então, a identidade de Philippe, toma posse dos seus bens e, pouco a
pouco, conquista sua namorada. Tudo perfeito, se não fosse por um detalhe: ter deixado — sem querer, é claro — um vestígio do crime: o
corpo de Philippe, emaranhado ao casco do navio, e que será descoberto no
desfecho do filme. Na referida sequência, Tom Ripley está na praia e é chamado
para atender a um telefonema, sem saber que policiais o esperam. Não é
necessário explicar o que vai acontecer depois disso. O espectador já sabe. Por
isso, o desenlace é apenas sugerido. Sugerido, pois Ripley, destro e
escorregadio, é capaz também de se esgueirar da polícia... Portanto, o final é
aberto. Além de uma envolvente história policial, O sol por testemunha
conta com uma belíssima fotografia e excelentes atuações, com destaque para o
ator francês Alain Delon. E acontece com o espectador uma estranha
transformação ao assistir a este filme: criamos uma forte empatia com o
criminoso, não conseguimos sentir raiva de Tom Ripley. Contemplamos seus
atos até com certo pesar, sem dúvida, mas sem detestá-lo — condescendentes,
talvez devido à sua beleza e ao seu charme, que também são de Alain Delon. É,
talvez.























