A obra de Sir Arthur Conan Doyle é vasta e variada.
É um erro associá-lo, terminantemente, ao personagem Sherlock Holmes e suas
aventuras de mistério policial. Conan Doyle dedicou-se também ao romance
histórico, com relativo êxito, e ainda mais freneticamente aos relatos
fantásticos e de ficção científica, dos quais uma de suas mais notáveis criações
é A nuvem da morte (The poison belt).
Grosso modo, seu argumento propõe o fim da humanidade, ameaçada de extermínio por
um gás venenoso, presente num cometa de passagem pela Terra. Deter-me na trama
implicaria revelar parte da história, o que poderia desestimular alguns
leitores mais afeitos a inícios e conclusões. Portanto, vou me ater aos
pormenores que me fizeram enxergar, neste livro, influências sobre alguns
afamados filmes de ficção científica e até de suspense. Tais evidências me obrigaram
a especular que este breve romance goza de muito mais prestígio entre os
leitores de língua inglesa do que lhe atribuem as edições brasileiras, quase
sempre destinadas ao público juvenil. Na minha edição (São Paulo: Nova
Alexandria, 1994), em tradução do escritor e editor Rodrigo Lacerda, à página
94, lê-se: “Elas tinham sido dispensadas por seus aterrorizados professores e
estavam correndo para suas casas quando o veneno agarrou-as em sua rede”. Um
leitor atento, e que aprecia o melhor do cinema mundial, há de reconhecer nesta cena a
origem de outra, de Os pássaros,
quando as crianças abandonam a escola e correm, perseguidas pelas aves. Mais
adiante, na página 98, reconhece-se na velha asmática que passou incólume pela
tragédia promovida pela nuvem a fonte de inspiração de M. Night Shyamalan no
desfecho de Sinais, ainda que indiretamente. No filme, o garoto só
sobrevive ao veneno alienígena porque também é asmático. Na mesma página, logo
a seguir, há um trecho que pode ter permanecido, em estado de suspensão, no
inconsciente dos criadores de Extermínio, dirigido por Danny Boyle: “Quando nos aproximamos do rio Tâmisa, o bloqueio nas ruas aumentou e os obstáculos
se tornaram mais espantosos. Foi com dificuldade que conseguimos atravessar a
ponte de Londres”. Por fim, na página 113, percebe-se na evocação do sono,
referido na fala de um dos personagens, o elemento norteador da trama de Cidade das sombras, de Alex Proyas. Além do mais, todo o
entrecho de A nuvem da morte parece subsistir
na construção de outro filme de Night Shyamalan, O
fim dos tempos. Neste caso, creio que a sugestão é explícita ― ou não será
uma pista o fato de que o filme se abre com nuvens, e a todo momento o vento é
evocado? A loucura que acomete os personagens e os conduz ao suicídio parece cair
do céu e, aos poucos, espalhar-se sob o efeito das correntes de ar. Conan
Doyle talvez não imaginasse o poderoso alcance que seu relato teria, e nem
talvez o escrevesse, se fosse este o propósito. Mas é evidente que seu vigor
persiste na imaginação dos leitores e, eventualmente, vem à superfície da
inspiração.
Noir francês
A lua na sarjeta (La lune dans le caniveau, 1983), David Goodis por Jean-Jacques Beineix.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
sábado, 12 de janeiro de 2013
AS AVENTURAS DE SHERLOCK HOLMES
Esta é uma das mais bonitas edições deste livro no Brasil. O formato é de bolso (18x12cm), em capa dura, com 50 ilustrações originais, assinadas por Sidney Paget, e folhas de guarda em papel quadriculado verde e branco. De fato, uma edição luxuosa, com fonte tipográfica atraente (Kingfisher), mancha sedutora, entrelinha confortável e margens medianas, aspectos que conferem à leitura um duplo prazer: do texto em si e do objeto gráfico manuseado. O papel é o Pólen Soft de 70g. A editora Zahar, na verdade, reedita o mesmo livro que publicou, em 1987, na coleção O Creme do Crime. As mudanças são poucas, uma das quais, porém, muito relevante: naquela edição o tradutor foi Waltensir Dutra; nesta, Maria Luiza X. de A. Borges. Foi-se embora, também, o substantivo de tratamento respeitoso "sir", que, na edição de 1987, comparece à folha de rosto e às orelhas (apresentação e biografia), mas não à capa; e, na atual, bem discretamente, só à ficha catalográfica (que poucos leem) e à biografia interna, consultada sempre às pressas pela maioria dos leitores. Alguns dos contos mais célebres do autor (e, claro, do seu mais famoso personagem!) integram o volume, entre os quais Escândalo na Boêmia e A Liga dos Cabeças Vermelhas, frequentes presenças em muitas antologias do autor e do que a literatura policial produziu de melhor. O preço é altamente convidativo ainda, mesmo passado um ano desde seu lançamento, para um livro de tal requinte: R$22,00.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
ASTRONAUTA MAGNETAR
Atualização do popular personagem Astronauta, de Maurício de Sousa, criado em 1963, há exatos 50 anos. Infelizmente, nem a história nem a arte de Danilo Beyruth empolgam o leitor, especialmemte aquele habituado à literatura canônica de ficção científica (Asimov, Bradbury, Clarke, Conan Doyle, Lem, Wells, Verne) ou ao que de melhor os quadrinhos do gênero produziram (Moebius, Bilal). Há na publicação, no entanto, alguns méritos, e o leitor juvenil menos exigente, de maneira geral, há de apreciá-la. Certos trechos se destacam pelos recursos narrativos empregados. O primeiro, entre as páginas 38 e 41, é a representação gráfica da jornada de rotina, tédio e solidão do personagem, confinado a uma região remota do espaço. As páginas se sucedem e se amiúdam, até que as cenas de atos triviais que definem a clausura de 146 dias mal podem ser reconhecidas. A segunda sequência narrativa a ressaltar é a que compreende as páginas 48 e 57. Num ápice de desespero, o Austronauta começa a delirar e, ato contínuo, faz um balanço de sua existência. Por fim, o desfecho, que, muito embora constitua um clichê da literatura romântica (e posteriormente do cinema), ainda funciona, e não sabemos ao certo se o personagem viveu realmente aquela aventura ou a sonhou. Danilo Beyruth é mais conhecido pela premiada HQ Bando de dois e Necronauta, e demonstra em Astronauta magnetar toda a sua versatilidade. O gibi abre a coleção Graphic MSP (coedição da Panini Comics e Maurício de Sousa Editora), que vai publicar atualizações dos personagens do artista ilustre por grandes nomes contemporâneos dos quadrinhos brasileiros. Como o próprio Maurício diz, na introdução: "As sementinhas que plantei, décadas atrás, germinaram".
Marcadores:
Comentários,
Danilo Beyruth,
Ensaios e resenhas,
Ficção Científica,
Graphic Novel,
HQ,
Maurício de Sousa,
Mayrant Gallo,
Quadrinhos Brasileiros
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
CLÁSSICOS SCI-FI: AS CRÔNICAS MARCIANAS
Foram As crônicas marcianas (The martian chronicles) que revelaram o autor Ray Bradbury e definiram seu estilo, de tramas fantásticas, orientadas pela livre imaginação, e linguagem poética, aspectos que o fizeram único e singular entre os autores de ficção científica. Publicado nos EUA em 1950, As crônicas marcianas colheram elogios imediatos de Adous Huxley e Christopher Isherwood. Ao longo das décadas, a obra granjeou prestígio junto a escritores tão diversos quanto Mário Quintana, no Brasil, e Jorge Luis Borges, na Argentina, que lhe dedicou um prólogo elogioso, no qual expressa seu fascínio pela obra e ressalta o estilo do autor. E, de fato, este exemplar da literatura fantástica é uma das mais importantes obras literárias do século XX e transcende em muito seu gênero, constituindo-se num clássico da ficção americana e mundial. É, inclusive, uma obra de difícil classificação, pois pode ser avaliada como um conjunto de contos ou um romance, formado por várias histórias, e cujo assunto seria a suposta colonização de Marte pelos terráqueos. Algumas histórias, por sua beleza poética e conteúdo fantástico, seduzem os leitores mais exigentes, enquanto outras, mais movimentadas, encerram os leitores numa espécie de vórtice que só se detém com o desfecho. A obra é, ainda, uma profunda reflexão sobre o protagonismo do ser humano no Universo, caso ele, algum dia, alcançasse outros planetas e chegasse a colonizá-los. Em suma, Marte só é Marte para nós. Um "marciano", se existisse, só seria marciano para nós e, certamente, teria dado outro nome ao seu planeta, ao passo que o nosso, para ele, também não se chamaria Terra. Portanto, quando os terráqueos chegam a Marte, deparam-se com "o outro" como ele verdadeiramente é, muito diferente de como a imaginação do homem o moldou e suas expectativas de expansão espacial o consagraram. No curso das aventuras de As crônicas marcianas, os terráqueos se alarmam duplamente: com o que não encontram e com o que veem e lhes é por demais estranho. A melhor edição brasileira é a da Editora Globo, de 2005, com o Prólogo de Borges e um prefácio assinado por Donizete Galvão. A tradução é de Ana Ban, reproduzida pela editora, em formato de bolso com propósitos didáticos, no ano seguinte.
Marcadores:
Clássicos,
Clássicos Sci-Fi,
Contos,
Ensaios e resenhas,
Ficção Científica,
Jorge Luis Borges,
Literatura Fantástica,
Mário Quintana,
Mayrant Gallo,
Ray Bradbury,
Romances
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
MALET POR TARDI
O
escritor francês Léo Malet, nascido em Montpellier em 2009 e morto
em 1996 em Paris, jamais teve suas obras regularmente publicadas no
Brasil. Talvez o único livro de que se tem notícia seja É
sempre noite (La vie est dégueulasse), da Trilogia negra,
publicado pela Companhia das Letras em 1991 e jamais completada pela editora. Como os romances estrangeiros policiais tradicionalmente eram
publicados no Brasil por casas editoriais de vida efêmera e em edições
baratas, que mais cedo ou mais tarde desapareciam na poeira dos sebos
e das bibliotecas, não se pode afirmar que nenhuma outra obra do
autor não tenha vindo a público por aqui, em algum momento dos últimos
cinquenta anos. Malet deixou de escrever nos anos 1960, mas seus
livros, na França, continuaram populares e exaltados pela crítica,
tanto a mais exigente quanto a específica do gênero policial. Isso
se deve ao fato de ele mesclar, com eficiência, a ação rápida do romance policial
americano com a tendência, na qual a literatura francesa é
insuperável, de refletir sobre a realidade e filosofar sobre a
condição humana. Neste sentido, Malet não se parece com ninguém.
Talvez um pouco com Simenon. Para o deleite de seus raros
apreciadores no Brasil (tenho quase certeza de que este grupo não
é legião!), a editora de HQ Zarabatana Books acaba de lançar
Brumas sobre a Pont de Tolbiac, adaptação para os quadrinhos
por Jacques Tardi do romance homônimo de Léo Malet. O próprio
Malet afirma, no prefácio, que este é um de seus livros mais
apreciados, por ele e pelo público, com edições sucessivas.
Curiosamente não foi aproveitado pelo cinema, mas se tornou uma
belíssima HQ, pelas mãos de um astro dos quadrinhos franceses. A
edição brasileira, em P&B sobre papel couché e dimensão
confortável de 16x23cm, impressiona pelo requinte e pela beleza, e o estilo de Tardi parece perfeitamente assentado ao de Malet, seja na
caracterização física dos personagens seja nos retratos em
claro-escuro das ruas de Paris. Dá até vontade de ir lá, tamanho é o realismo! Para a nossa
decepção, infelizmente, os protagonistas Nestor Burma e a cigana
Belita são só de papel. A edição compreende o volume 1 da Coleção
Nestor Burma. Torçamos para que a editora cumpra o prometido e
publique mais adaptações de Malet por Tardi.
domingo, 14 de outubro de 2012
SCARFACE HQ
Nesta adaptação para os quadrinhos do romance Scarface, de Armitage Trail, sobressai-se o talento do quadrinista francês Christian de Metter para a concepção nostálgica do universo noir, do qual o livro, publicado no fim dos anos 1920, é precursor e antecipa as grandes obras do gênero, de autoria de Chandler, Hammett, Goodis, Cain, Chase, os dois MacDonalds e mais alguns poucos autores. A adaptação é precisa e bem realizada, tornando a história veloz, enfática de imagens e composta das falas necessárias para o andamento mais visual que verbal da trama. Em busca da representação da Chicago daquela época, a capital americana do crime, De Metter banha seus pincéis de preto, azul, verde e amarelo, cores predominantes e sempre borradas por um indefectível "nevoeiro", que deixa as cenas constantemente embebidas de ambiguidade e mistério, mesmo as externas, à luz do dia, sob um céu amarelo (páginas 58-62). Percebe-se que a influência do cinema é decisiva, tanto mais que o romance inspirou um dos mais célebres filmes de gângsteres, Scarface (1932), dirigido por Howard Hawks e Richard Rosson, ao qual, volta e meia, os filmes contemporâneos do gênero retornam. Em algumas cenas, o rosto da atriz francesa Marion Cotillard parece ter inspirado a caracterização da personagem Jane Conley, a Porta-Armas, especialmente a partir da página 99. Publicada na França em 2011, a HQ Scarface saiu no Brasil no primeiro semestre de 2012, pela Editora Globo, na coleção Globo Livros Graphics.
Marcadores:
Armitage Trail,
Christian de Metter,
Ensaios e resenhas,
Gângster,
Howard Hawks,
HQ,
Marion Cotillard,
Mayrant Gallo,
Noir,
Richard Rosson
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
O OUTRO GUME DA FACA
O outro gume da faca integra o volume de novelas de Fernando Sabino
intitulado A faca de dois gumes,
publicado em 1985 e que, rapidamente, em dez anos apenas, atingiu a 11ª
edição, tendo sido reeditado, também, pelo extinto Círculo do Livro, em 1993. A popularidade do
conjunto pode, grosso modo, ser atribuída a esta novela, uma das mais lidas do
autor e que, além do mais, foi adaptada para o cinema com o título Faca de dois gumes. Muito embora
compreenda um relato policial, sem muita tradição no Brasil, cujos leitores,
quando se dedicam a ler obras do gênero, dão preferência aos autores
estrangeiros ― alguns deles fortemente amparados pelo marketing editorial, tanto a novela quanto o livro foram muito bem recebidos pela crítica e pelo público. A trama, o autor arrancou-a do romance O assassino, de Georges Simenon, e, de
forma a confessá-lo e, ao mesmo tempo, homenagear aquele que é, nos meios
literários, o mais refinado dos autores do gênero policial, Fernando Sabino
cria, ao fim do capítulo 5, o seguinte acróstico: Se
Isso Me Era Necessário Ou Não. Aldo Tolentino,
ao descobrir que sua mulher o trai com seu sócio, projeta matá-los e, num crime
perfeito, ficar impune. Mas, no fluxo da vida, as coisas dificilmente saem como foram planejadas, e, se no romance de Simenon as consequências são de fundo psicológico, na
novela de Sabino descambam para as peripécias cotidianas e existenciais, à
maneira das grandes tragédias gregas, o que já está previsto na exemplar
epígrafe que abre a novela, de autoria de Kierkegaard: “Ai daquele que sabe: há
de pagar pela culpa de ter sabido pouco”. Em linguagem exata e analítica, fartamente
dialogada, como é comum às novelas literárias, com ritmo veloz, quase
hipnótico, irônica e implacável quanto ao que se propõe ― narrar as agruras de
um humilde advogado vítima do adultério: “Agora que ele sabia tudo, tornava-se senhor
da situação, capaz de dominá-la à vontade, sentia-se onipotente. Sabia tudo.
Podia tudo” ―, O outro gume da faca é
daquelas obras que esculpem a fama de qualquer autor e o projetam para além da
crítica mais complacente, obrigando a mais ferina a parecer despeitada. Na
edição em separata, publicada pela
Ática, em 1996, e precedida por uma entrevista com o autor, este, ao resumir o
espírito da novela, acaba por oferecer, tout
court, uma definição para o relato policial de ação, em contraponto ao
relato policial de mistério: “(...) nas histórias policiais em geral já se sabe
qual o crime e procura-se descobrir o criminoso. No caso desta novela (...) pode-se
dizer que se passa o contrário: o criminoso é conhecido, o que se procura
descobrir é que espécie de crime cometeu ― se é que cometeu”. Ao longo da
entrevista, Sabino expõe todo o seu conhecimento acerca do gênero policial e de
outros, consideravelmente mais literários, mas que, ainda assim, narram um
crime e suas consequências. Ao fim, ele afirma que, embora não tenha matado
ninguém, O outro gume da faca
decorre, de certo modo, de uma experiência pessoal, pois o escritor é, “como
todo mundo, inconscientemente, um criminoso potencial”. A única exceção seria...
Jesus Cristo! E, por isso mesmo, “olha só o que fizeram com ele...”. Na Obra reunida de Fernando Sabino (Nova
Aguilar, 1996) ― O outro gume da faca está
no volume 2, entre as páginas 845 e 885 ―, Reynaldo Bairão assim se refere a
esta novela: “(...) é a mais realista, a mais próxima da literatura policial
que estamos acostumados a ler. A trama é excelente. Parece correr sobre carretéis.
A ação vai num crescendo admirável, até chegar a um final dramático,
incongruente como a própria vida”. Fernando Sabino vive, a despeito de Ferreira Gullar, que no velório do autor o definiu como "escritor menor".
domingo, 7 de outubro de 2012
MISTÉRIO NO DISTRITO 87
Nesta edição brasileira de He who hesitates, publicado com título completamente anacrônico pela Editora Expressão e Cultura, em 1974, o texto da quarta-capa chama a atenção do leitor para o protagonista, que, psicologicamente abalado, espreita o Distrito 87 e chega a seguir, pelas ruas, o detetive Steve Carella, como se quisesse confessar-lhe um crime. E o editor conclui: "A história de um estranho crime. Uma história diferente, que, de surpresa em surpresa, levará o leitor a um desfecho que você ainda não conhece no gênero policial". A primeira indagação do leitor, acostumado ou não às leituras de narrativas policiais, é sobre o porquê deste texto. Simples: o editor, diante de uma obra que, como relato policial, não segue os padrões então estabelecidos, opta por uma convocação à leitura que vai, antes de tudo, exaltar a estranheza da história. De fato, a trama deste livro é singular, mas o é apenas porque não é um relato policial de mistério ou enigma, no qual a base da narrativa consiste em seguir os meandros da investigação. He who hesitates é simplesmente um relato policial de ação: o crime acontece diante do leitor, que se torna cúmplice do protagonista. Não há detetive, não há investigação, não há caçada ao criminoso. Se alguém julga a este, é ele próprio, que entra em crise de consciência. O capítulo 5, especialmente, apresenta páginas que despertam grande interesse, por colocar face a face, num relacionamento inter-racial, numa época em que tal aspecto ainda não era um modismo, um homem branco e uma garota negra. E é dos lábios da moça que saem as grandes tiradas: "Não sei como é um homem branco encrencado. Já vi muita gente de cor nessa situação. Aliás, se a gente é de cor, vive sempre numa encrenca, desde o dia em que nasce. Mas não conheço a aparência de um homem branco numa situação dessas. Não sei como ficam seus olhos". Ou, quando ele lhe pede que olhe para ele e diga se vê encrenca dentro de seus olhos: "Não, a não ser que eu mesma seja uma". Por fim: "É claro que minha mãe pode não gostar que eu leve pra casa um homem branco. Pode mesmo pegar a cantar uma velha canção que costuma cantar desde que eu era uma criancinha mimada: Filhinha, afaste-se do homem branco; ele só quer se meter nas suas calças e roubar sua virgindade". Como em quase todos os livros de Ed McBain que decorrem no Distrito 87, e mesmo neste, em que o Distrito é apenas entrevisto pelo olhar do criminoso, a esposa do detetive Carella aparece, sempre deslumbrante e sensual: "O detetive estendeu-lhe a mão, ela a segurou, levantou o rosto e os olhos para ele, um franco e amoroso sorriso iluminando-lhe a fisionomia. Nossa! Como era bela! O cabelo era negro, os olhos, de um castanho escuro, e ela sorria para o detetive com os olhos, a boca, o rosto inteiro, e depois ficou de pé a seu lado na calçada, beijou-o rapidamente na boca, não na face ou no queixo, mas um carinhoso e repentino beijo na boca". Ao observar esta cena, o criminoso conclui que Teddy Carella "sentia-se simplesmente felicíssima por estar com seu homem" e que ele jamais fora amado desta forma.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
O VIGARISTA, DE ED MCBAIN
Neste romance, que é um dos primeiros da série do Distrito 87, a participação da esposa do detetive Steve Carella, Teddy Carella, é mais ampla e intensa, quase de protagonista. Embora seja muda e só se comunique através de sinais e bilhetes, ela é decisiva para a solução do enigma e fica, no desfecho, tête-à-tête com o assassino, que lhe diz, sarcástico, atraído por sua beleza: "Posso falar, você pode prestar atenção e eu não tenho que declamar poesias de amor. Você é sensual também. Água parada mas profunda". Além disso, é nesta aventura que Teddy Carella faz, no ombro, a primeira tatuagem de borboleta, sobre a qual, anos depois, no dia dos namorados, tatuará outra, maior, como símbolo de seu amor pelo marido. O início da trama envolve duas mulheres mortas, encontradas no rio Harb com os corpos em avançado estado de putrefação. Em poucos dias, o detetive Carella se vê diante de um assassino serial que, além de tudo, assina suas vítimas com uma tatuagem. E, diferentemente de outras mulheres sacrificadas, que em geral são fatais e sedutoras, estas não chamavam a atenção dos homens por sua beleza. Isto direciona a investigação para uma evidência crucial: de que as vítimas foram mortas por um motivo preciso e específico, talvez monetário. Como todos os romances policiais do autor, O vigarista (The con man) não se detém apenas no entrecho policial. O narrador faz digressões, expõe fatos paralelos, analisa o contexto socioeconômico, que favorece o crime e a ação dos vigaristas, e até ironiza, metalinguisticamente, com os relatos policiais: "O crime anda solto pelas ruas, e aquele era um excelente dia para se cometer um assassinato. Os vigaristas que escrevem livros policiais não poderiam escolher um dia melhor, teriam imaginado exatamente assim: Uma chuvinha fina e cortante caindo sobre o rio Harb, um céu pesado e cinzento (...). Um close mostraria de repente uma mão saindo da superfície da água, os dedos rijos e esticados". Por outro lado, a história é também uma declaração de amor do detetive Carella à sua esposa, Teddy, sempre generosamente descrita por sua beleza e sensualidade. Tal aspecto não surpreende nem um pouco o leitor de Ed McBain, por saber ele que, como dizem os críticos, o autor praticamente inventou um tipo pessoal de romance policial, ao mesmo tempo fiel à tradição e em nada parecido com nenhum outro.
Marcadores:
Distrito 87,
Ed McBain,
Ensaios e resenhas,
Escritores policiais,
Mayrant Gallo,
Personagens,
Relato Policial de Ação,
Romances,
Teddy Carella
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
SANGUE E GELO
Sangue e gelo (Ice) é comumente considerado um dos melhores romances de Ed McBain e até a sua obra-prima. A trama, tradicional, tem início com o assassinato de uma jovem dançarina loura, ao voltar para casa depois de deixar o teatro, onde se exibe na peça Fatback, sucesso da temporada. Sua morte é a primeira de muitas que vão requerer do Distrito 87 atenção total, durante a investigação. Ed McBain, que escreveu sem perder o vigor mais de 50 romances com os detetives do Distrito 87, tem um estilo único, uma mistura de Chandler com Simenon. Em muitas páginas, a investigação permanece em segundo plano, e a vida cotidiana dos detetives ganha relevo, o que acaba por conferir aos seus livros um valor que ultrapassa o simples relato policial. Em Sangue e gelo, especialmente, há o drama paralelo de uma policial cujo único trabalho na corporação é servir de isca para a detenção de estupradores e maníacos sexuais. Num arroubo de desespero e medo, ela chega a confessar, um dia, a um colega, que sonha em ser estuprada, de forma encenada, como no teatro ou no cinema... Ao passo que a trama se desenvolve, o leitor vai conhecendo os detetives e mergulhando em suas vidas, não diferentes das nossas, cheias de receios, dúvidas, traumas, sonhos frustrados e alguns raros momentos de felicidade, como o de Carella, que, no dia dos namorados, descobre que a esposa tatuou, sobre a tatuagem de borboleta que ela já possuía, uma outra borboleta, maior, simbolizando-o e sugerindo, entre eles, um amor perene e de inesgotável desejo sexual. De difícil classificação, por não constituir uma narrativa comum, e impossível de se resumir em poucas linhas, por reunir mais do que uma trama policial, Sangue e gelo proporciona uma proveitosa imersão no universo e estilo do autor, ao mesmo tempo que documenta o cotidiano das grandes metrópoles americanas, das quais a cidade, não nomeada pelo narrador, é uma gélida e legítima alegoria.
sábado, 22 de setembro de 2012
OS INTOCÁVEIS
Os intocáveis, de Boileau-Narcejac, pseudônimo
forjado pela dupla de escritores franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac, é
um claro exemplo do relato policial de ação. O romance conta a história de dois
párias, intocáveis pela desonra: o desempregado Jean-Marie Quéré e o
ex-prisioneiro Ronan De Guer. No decorrer da leitura, ficamos sabendo do
assassinato do comissário Barbier, cometido dez anos antes por Ronan que, na
época, era um ativista político. Após ser solto, este conta com a ajuda de um
amigo da juventude, Hervé, para encontrar o paradeiro de Quéré, que,
segundo Ronan, o delatou para a polícia, fazendo com que fosse preso e que a
sua noiva, Catherine, grávida, cometesse suicídio. Portanto, há também uma
investigação. Mas não exatamente como acontece no gênero policial de enigma. O
detetive contratado por Hervé não procura o assassino do comissário Barbier,
pois este já foi denunciado e punido. O leitor já conhece o assassino e a
vítima. A busca é por Quéré, suposto delator. A intenção de cometer um novo
crime é anunciada por Ronan desde o início da narrativa. E nós, leitores, acompanhamos toda a ação, nos convertemos em cúmplices do criminoso. E para este assassinato
― que acontece no ponto exato ― não há investigação, nem punição alguma, pois nada
disso é necessário. O desfecho é totalmente previsível, como dizem alguns
críticos, mas isto também não importa nem um pouco para os leitores sensíveis. O
que, de fato, nos interessa é a angústia de Quéré, casado com Hélène, a quem
conhecemos através das cartas que este envia para um amigo religioso. O que nos
toca é a agonia de um homem desempregado, que se sente inútil e que desistiu da
fé. O que nos desperta é a dor; e o desejo de vingança de um rapaz que perdeu a
namorada e que apenas tem como meta a morte daquele que acredita tê-lo privado
do sentimento que o guiava. O que nos emociona é o desespero, a paralisia de um
antigo padre, que, consciente da sua existência absurda, deixa-se assassinar. O
novo crime ou sua punição é o que menos interessa. E nem por isto o livro deixa
de ser um relato policial genuíno. Apenas o seu tema central não é a elucidação de um
enigma, mas, sim, o destino de duas vidas destruídas por um passado comum.
LIDIANE NUNES, uma infiltrada.
Marcadores:
Boileau-Narcejac,
Ensaios e resenhas,
Escritores policiais,
Lidiane Nunes,
Literatura Policial,
Noir,
Policial Francês,
Relato Policial de Ação,
Romances
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
CONTOS DE CRIME
Marcadores:
Clássicos,
Ensaios e resenhas,
Flávio Moreira da Costa,
Guy de Maupassant,
Literatura,
Literatura Policial,
Machado de Assis,
Robert Louis Stevenson
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
NÃO ENVIEM ORQUÍDEAS PARA MISS BLANDISH
Quando publicado pela primeira vez, em 1938, Não enviem orquídeas para Miss Blandish (No orchids for Miss Blandish) foi considerado um dos mais violentos romances policiais já escritos e granjeou ao seu autor, o inglês James Hadley Chase, uma inopinada celebridade. Exaltado por alguns e muito criticado por outros (o escritor George Orwell foi um dos seus mais veementes opositores), devido à sua crueza, o romance teve poucas edições em português, das quais a mais conhecida é a da antiga Editora Globo, de Porto Alegre, em 1967, inaugurando a Série Amarela da Coleção Catavento, destinada a publicar as mais importantes obras do gênero policial da época. No formato 12x18cm, com berrante capa de Clara Pechansky e tradução de Leonel Vallandro, a edição trazia informações curiosas, como: "Mais de 500.000 exemplares deste livro já foram vendidos em todo o mundo". Na contracapa, o editor aumentava este número para 700.000 e a quantidade de leitores para mais de dez milhões, além de afirmar que o livro de Chase "na opinião dos críticos, dá uma nova dimensão à novela policial", o que não chega a ser exagero, se levarmos em conta que, excetuando-se autores como Chandler, Goodis, Cain e Hammett, os demais eram bem comportados contadores de histórias de detetive. A história pode ser dividida em duas partes: a primeira, tipicamente de ação, acompanha os bandidos e se fixa no sequestro da garota Blandish, que, mesmo depois de pago o resgate por seu pai, permanece em poder dos sequestradores, mantida à base de drogas e diariamente seviciada; a segunda, de mistério, encena as investigações da polícia, de um gângster melindrado e de um detetive particular, contratado pelo pai da moça para achá-la. Na junção dos dois pontos de vistas está a solução da trama, forte, inesperada e, para muitos leitores, desagradável. A linguagem é descarnada, direta e sem arroubos poéticos, centrada no desenvolvimento objetivo da história, cujo assunto já é por si só excessivamente indigesto. Sem edições há décadas no Brasil, como, aliás, toda a obra de James Hadley Chase, Não enviem orquídeas para Miss Blandish merece voltar a público numa tradução moderna e fiel à sua importância para a história do relato policial moderno, e ainda mais porque sua trama, antes violenta, não passa hoje de uma extensão vulgar da sociedade.
Marcadores:
Dashiell Hammett,
David Goodis,
Ensaios e resenhas,
Escritores policiais,
James Hadley Chase,
James M. Cain,
Noir,
Policial Inglês,
Raymond Chandler,
Romances
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
DÁLIA NEGRA
Em 1947, há 65 anos, portanto, completados no último dia 15 de janeiro, Elizabeth Ann Short (nascida em Medfort, Massachusetts, EUA, em 29-07-1924) era achada morta num terreno baldio da Rua 39, esquina com a Norton, em Los Angeles. O corpo estava divido em duas partes à altura da cintura, eviscerado (sem intestinos, fígado, estômago e baço) e com um corte de orelha a orelha, que conferia à boca um sorriso permanente e macabro. Outras evidências, como lacerações e queimaduras de cigarro nos seios (um dos quais encontrava-se praticamente solto), remoção a faca de tatuagem na coxa esquerda, fraturas nos dois joelhos (já em processo de cicatrização), um talho longitudinal do umbigo ao púbis (provavelmente para extração de útero, bexiga, ovários e reto), marcas de chicotadas e fraturas profundas no crânio e no rosto, além de vestígios do uso de cordas nos pulsos e tornozelos, indicavam que durante vários dias ela fora torturada, estuprada e sodomizada. E ainda, como se o assassino confessasse, apesar do requinte de crueldade, sua propensão à higiene, o corpo de Elizabeth Short tinha sido lavado em água corrente antes de ser jogado no terreno baldio. O sofrimento que ela passou ninguém pode sequer imaginar. E só, abandonada, impossibilitada de pedir socorro, pois é quase certo que o assassino vinha visitá-la, praticava seus atos ignóbeis e depois a largava entregue à dor e à humilhação. Porque frequentemente ela se vestia de preto, e em analogia a um filme célebre naquele tempo, Elizabeth Short recebeu da imprensa o apelido Dália Negra.
Muitos livros e reportagens foram escritos sobre este crime, mas em termos de ficção o mais importante é, sem dúvida, o romance Dália Negra, de James Ellroy. Ao transformar em ficção o assassinato de Elizabeth Short, que tinha apenas 23 anos, Ellroy construiu um livro que é, antes de tudo, uma reflexão sobre a vida americana e seu gosto pelos crimes hediondos. Sua solução para o enigma é, no mínimo, engenhosa: um policial descobre o assassino, mas não o revela à sociedade, obrigando que a realidade e a ficção coincidam, além de sugerir, metaforicamente, que a polícia na verdade chegou ao assassino, mas, por algum motivo, preferiu esquecê-lo. Desse modo, tanto na vida quanto no livro a Dália Negra ficou sendo apenas mais uma mulher morta, entre tantas outras que perdiam a vida na California dourada. O assassinato de mulheres bonitas era um crime tão recorrente na época, que até a mãe de James Ellroy tornou-se uma das vítimas. Em 1958, ele era apenas um garoto quando ela foi achada sem vida numa estrada de Los Angeles. O assassino jamais foi encontrado. Ellroy demorou a se recuperar deste triste episódio, e isso o levou às drogas e ao crime. Mas, graças à literatura, pôde desviar-se e acabou por se tornar um dos mais importantes autores policiais dos EUA e do mundo, desde que publicou Dália Negra, em 1987, que, não por acaso, ele reporta à mãe, Geneva Hilliker Ellroy (1915-1958): "Mãe: vinte e nove anos depois, esta despedida em sangue".
Muitos livros e reportagens foram escritos sobre este crime, mas em termos de ficção o mais importante é, sem dúvida, o romance Dália Negra, de James Ellroy. Ao transformar em ficção o assassinato de Elizabeth Short, que tinha apenas 23 anos, Ellroy construiu um livro que é, antes de tudo, uma reflexão sobre a vida americana e seu gosto pelos crimes hediondos. Sua solução para o enigma é, no mínimo, engenhosa: um policial descobre o assassino, mas não o revela à sociedade, obrigando que a realidade e a ficção coincidam, além de sugerir, metaforicamente, que a polícia na verdade chegou ao assassino, mas, por algum motivo, preferiu esquecê-lo. Desse modo, tanto na vida quanto no livro a Dália Negra ficou sendo apenas mais uma mulher morta, entre tantas outras que perdiam a vida na California dourada. O assassinato de mulheres bonitas era um crime tão recorrente na época, que até a mãe de James Ellroy tornou-se uma das vítimas. Em 1958, ele era apenas um garoto quando ela foi achada sem vida numa estrada de Los Angeles. O assassino jamais foi encontrado. Ellroy demorou a se recuperar deste triste episódio, e isso o levou às drogas e ao crime. Mas, graças à literatura, pôde desviar-se e acabou por se tornar um dos mais importantes autores policiais dos EUA e do mundo, desde que publicou Dália Negra, em 1987, que, não por acaso, ele reporta à mãe, Geneva Hilliker Ellroy (1915-1958): "Mãe: vinte e nove anos depois, esta despedida em sangue".
Marcadores:
Comentários,
Crimes reais,
Dália Negra,
Ensaios e resenhas,
James Ellroy,
Literatura Policial,
Mayrant Gallo,
Narrativas policiais,
Noir,
Romances
terça-feira, 17 de maio de 2011
ANATOMIA DE UM CRIME: O LIVRO
De volta à estante, o romance que inspirou um dos melhores filmes policiais de todos os tempos, Anatomia de um crime (1959), de Otto Preminger, com James Stewart, Lee Remick e Ben Gazzara, em início de carreira. O filme foi indicado a sete categorias do Oscar, inclusive a de melhor filme.O livro homônimo estava esgotado no Brasil há várias décadas, era uma raridade editorial só encontrada nos sebos e a preços pouco convidativos. A José Olympio Editora acaba de lançar uma nova edição, com tradução da escritora Sônia Coutinho. Escrito por um ex-promotor, Robert Traver, e baseado numa história real, Anatomia de um crime se passa numa cidadezinha do Meio-Oeste americano, onde o advogado Paul Biegler, com a carreira comprometida, tem a oportunidade de se reabilitar perante a sua categoria profissional, defendendo o tenente Frederick Manion, acusado de assassinar o homem que supostamente teria estuprado sua esposa. Mas o caso não é assim tão simples. Houve realmente estupro? O que houve, na verdade? E qual é o grau de envolvimento da mulher com o homem que foi morto?
Se Alfred Hitchcock afirmava que livros ruins davam bons filmes, o inverso também é verdade. Mas o caso aqui é de um ótimo livro que originou um ótimo filme. Em tempos de romances de qualidade duvidosa, e pretensiosos filmes policiais que, ao fim, não passam de um saco de tiros, sopapos, correria, perseguição de carros e explosões pirotécnicas, leia e depois veja Anatomia de um crime. A perenidade de ambos não é por acaso.
Marcadores:
Ben Gazzara,
De volta à estante,
Ensaios e resenhas,
Escritores policiais,
Filmes,
James Stewart,
Lee Remick,
Mayrant Gallo,
Otto Preminger,
Robert Traver,
Romances
quarta-feira, 11 de maio de 2011
ATIRE NO PIANISTA
Um pianista exímio, mas estragado para a vida pelo suicídio da esposa; seus dois irmãos bandidos; a garçonete do bar onde ele toca; um brutamontes; dois misteriosos bandidos que perseguem um de seus irmãos; uma casa remota na floresta, aonde os personagens chegam, para um embate violento e decisivo... Não há uma trama propriamente dita neste que é um dos mais célebres e melancólicos romances de David Goodis, e que François Truffaut transformou num excelente filme. Mas sobra miséria, solidão, desespero. Uma fatalidade que engole todos os personagens, como um ralo que, recém-aberto, traga com sofreguidão a água armazenada. Se o leitor espera encontrar uma história policial convencional, nem abra o livro. Não há um crime relevante, nem tampouco uma investigação complexa. A polícia mal aparece na história, e não há diferença entre os bandidos e as demais pessoas. O crime não é uma escolha pessoal, nem muito menos uma condenação. O crime compreende a própria vida e com ela se confunde. É um simples expediente. Um passo na vida pode ser um passo para dentro do crime; e um passo neste, um passo para fora da vida. Não é por acaso que o título em inglês é Down there, algo assim como Na pior ou Para baixo. De fato, todos os personagens estão na pior, caindo, indo abaixo, desabando. Como disse Rainer Maria Rilke, num de seus mais belos poemas: "Olha em redor: cair é a lei geral". Talvez esta seja a epígrafe para Atire no pianista. E uma proveitosa orientação de leitura para o leitor impaciente.
domingo, 8 de maio de 2011
DAVID GOODIS NO BRASIL
Dos autores norte-americanos que mudaram o gênero policial na primeira metade do século XX, talvez David Goodis (1917-1967) seja aquele que teve a aceitação mais discreta no Brasil, com a publicação recorrente de apenas quatro dos dezenove romances que escreveu. Bem ou mal, desde a década de 1980, saem por aqui: A lua na sarjeta (editoras Abril, Brasiliense e L&PM), Atire no pianista (Abril e Brasiliense), A garota de Cassidy (L&PM) e Sexta-feira negra (L&PM). São estes, aliás, os únicos títulos em catálogo no momento, todos pela Coleção L&PM Pocket, da editora gaúcha.Possivelmente nos anos 1960 ou 1970, vieram a público também entre nós, pela chancela da antiga editora Tecnoprint, alguns outros livros do autor, como Paixão criminosa (Of tender sin), volume 6 da coleção Seleção Criminal. O ladrão, pela mesma coleção, e Fogo na carne, pela coleção Seleção Policial, aparecem nas folhas de propaganda da editora. O primeiro é, seguramente, a tradução de The burglar (1953), mas o segundo, desconfio que talvez seja somente um outro título em português que se atribuiu, na época, a The moon in the gutter (1953).
Estes livros da Tecnoprint (hoje Ediouro) eram muito populares naqueles anos, impressos em papel ordinário, que enferrujava e rasgava facilmente, com capa que logo se tornava quebradiça e vendidos em rodoviárias, aeroportos, bancas de revista e nas lojas da própria editora. Procurar por essas edições, depois de mais de cinquenta anos, é mesmo uma missão quase impossível, pois não eram livros que se guardassem; como os gibis, eram descartados tão logo eram lidos. Mesmo assim, recentemente achei por acaso um exemplar de Paixão criminosa em surpreendente estado de conservação, e foi através dele que descobri que Goodis vem sendo publicado no Brasil há bem mais tempo do que se supunha, que não foram os filmes O tiro no pianista, de François Truffaut, e A lua na sarjeta, de Jean-Jacques Benieix, que o projetaram entre nós.
Para o leitor que admira Goodis, conhecido pelo epíteto "poeta da violência e da solidão", há também as edições portuguesas. A Editorial Caminho, na sua coleção Caminho Policial, publicou pelo menos Disparem sobre o pianista (Down there, 1956) e O ladrão (The burglar). E as Edições 70, Beleza mortal (Behold this woman, 1947).
Como há neste momento um certo interesse do leitor brasileiro pelas obras importantes do gênero policial, que definitivamente não visa apenas ao entretenimento, à leitura rápida e descartável, esperamos que tanto a L&PM quanto outras editoras passem a traduzir mais livros de Goodis no Brasil, como tem ocorrido com seus pares Dashiell Hammett, Raymond Chandler, James M. Cain, Ross MacDonald e Cornell Woolrich, que, em edições bonitas e bem cuidadas, invadiram as livrarias.
Marcadores:
Cornell Wollrich,
Dashiell Hammett,
David Goodis,
Ensaios e resenhas,
Filmes,
François Truffaut,
James M. Cain,
Jean-Jacques Beineix,
Mayrant Gallo,
Raymond Chandler,
Ross MacDonald
sábado, 7 de maio de 2011
IRRESISTÍVEL PAIXÃO
Elmore Leonard é um dos mestres atuais do relato policial norte-americano. Um mestre também da literatura de fronteira, mais conhecida entre nós como "histórias de faroeste". Nos relatos ambientados no Oeste americano do século XIX, publicou algumas obras-primas, que figuram hoje no cânone do gênero, como os romances Hombre e Valdez vem aí, e os contos Os cativos e 3:10 para Yuma. No gênero policial, a lista de livros importantes é extensa, entre os quais se destacam Pronto, Cárcere privado, Ponche de rum e Irresistível paixão, cujo título original é o mais adequado "Out of sight". A trama põe em contato e sob o efeito de uma paixão irrefreável dois personagens antípodas: o assaltante de bancos Jack Foley e a agente federal Karen Sisco. Ao fugir da cadeia, Foley acaba encerrado no porta-malas de um carro ao lado de Karen. Os dois estão ali, lado a lado, braços e pernas que se tocam, o calor dos corpos se confundindo, e de repente descobrem que possuem um gosto comum: o cinema. Alguns filmes se destacam, entre os muitos que os dois comentam ao longo da narrativa: Três dias do condor, Bonnie e Clyde, Um assaltante trapalhão, Pulp fiction, Repo man, A morte num beijo, Estranhos no paraíso. Separados, não esquecem mais um do outro, mas sabem que qualquer união, por mais rápida que seja, é impossível. Ele praticamente estaria se entregando à lei, e ela seria acusada de colaborar com um criminoso procurado... Não há mesmo o que fazer quando o amor surpreende duas pessoas que não se encaixam. E é isso que Karen Sisco (personagem retomada mais tarde por Leonard no conto Karen namora) deixa evidente, no desfecho, embora de maneira indireta, metafórica: "Quero que saiba que acho você um sujeito e tanto. Nem por um minuto achei que fosse velho demais para mim. Mas tenho medo de pensar de modo diferente daqui a uns trinta anos". Irresistível paixão é um romance policial imprevisível e improvável, que Elmore Leonard parece ter escrito com a mesma paixão que consome sem piedade os personagens. Sabemos, no entanto, que não é assim. Às vezes, o texto espontâneo, que tanto fascinou o autor, não conquista os leitores; às vezes ocorre o inverso: o texto que exigiu esforço tremendo, a ponto de quase fazer o autor desistir de sua empreitada, recebe dos leitores um acolhimento caloroso. Não sei qual o caso deste romance; sei, porém, que, tanto pelo estilo (preciso, direto, repleto de citações cinematográficas, com poucas descrições de ambientes, mas ótimas análises sobre a vida cotidiana) e pelo assunto (o amor impossível entre seres que se acham em polos opostos da existência) é uma história arrebatadora, que não consegui largar senão ao virar a última página. E quem me conhece sabe que raramente faço isso: costumo economizar, durante a leitura, os livros que admiro.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
O INVASOR
“Um homem diante de um deserto pode, ao menos, caminhar em qualquer direção.” Esta é, talvez, a chave para decifrar a metáfora da novela O invasor, de Marçal Aquino, recém-publicada em formato “quase de bolso” pela Companhia das Letras, na coleção Má Companhia.Alguns leitores podem argumentar que não há nada naquela história para ser decifrado. Mas há sim, pois a narrativa é em primeira pessoa. É um testemunho pessoal do personagem: é ele quem escreve tudo o que viveu, porque está vivo, ou esteve por um tempo, o suficiente para escrever sua história, em algum lugar. Não hesito em afirmar que, no deserto do seu drama, ele tomou outra direção, se corrompeu de todo, pois todo homem tem seu preço, que se mede ou em dinheiro ou em oportunidades. Neste sentido, no desfecho, foi oferecida a Ivan uma nova chance, e ele a agarrou, destituído de seu último fiapo de moral: quem suja as mãos uma vez suja duas.
O argumento de O invasor, que constituiu a base do filme homônimo de Beto Brant, uma das melhores produções brasileiras do final dos anos 1990, põe em pauta a afirmação — terrível — de que qualquer problema no Brasil pode, com proveito, ser resolvido a bala. O diálogo entre as partes faz perder tempo e dinheiro, e não passa de um vício socrático. Se alguém não concorda com você ou o está atrapalhando, elimine-o. Com isso, você ganhará tempo e economizará dinheiro, pois um matador de terceira categoria faz o serviço por qualquer trocado — e vida que segue. É assim entre parentes, entre vizinhos, políticos, sócios. Os jornais, a tevê e a internet estão cheios de histórias parecidas, cunhadas com base nesta fórmula.
E não foi de outro modo que Alaor (Giba, no filme) e Ivan decidiram resolver suas diferenças com Estêvão, sócio de ambos na construtora Araújo & Associados. Pagaram a Anísio para resolver seu problema, matando Estêvão. Só não contavam com o fato de que Anísio, depois, também se tornaria um problema, ao invadir suas vidas. E agora, quem vai matar quem? Retrato de nossa época, e não apenas no Brasil, O invasor é, além de uma ágil narrativa policial, um ótimo exame de quem somos nas situações extremas do cotidiano. Alguns (talvez a maioria) ainda preferem o diálogo, o acerto de contas verbal, mas há quem prefira encomendar um corpo, como se telefonasse e pedisse uma pizza.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
O MISTERIOSO CASO DE STYLES
Com este romance, Agatha Christie fez sua estreia na literatura policial, em 1917. E foi com ele também que ela forjou seu estilo (direto, dialogado e analítico, voltado exclusivamente para o desenvolvimento da trama) e seu método: narrar uma história policial, geralmente de assassinato, em que vários suspeitos são minuciosamente examinados por um detetive excêntrico e sagaz, quase sempre Hercule Poirot, que constitui seu personagem mais recorrente e um dos mais populares do gênero, ao lado de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, e Jules Maigret, de Georges Simenon. A história é simples e se tornou uma fórmula à qual a autora retornará sempre, com variações de cenário, personagens, clima e atmosfera. Um casarão antigo, num lugar remoto, o proprietário ou proprietária, seus moradores habituais, incluindo os criados, seus hóspedes frequentes e os visitantes de passagem. Um crime acontece, em situação e local que desafiam a inteligência mais aguçada, e todos se tornam suspeitos. Nesta aventura inicial, a Sra. Inglethorp morre envenenada com estricnina, e os suspeitos são seu marido, seus dois enteados John e Lawrence, sua nora Mary, a agregada Cynthia, o Dr. Bauerstein e Evelyn Howard, espécie de faz-tudo da casa. Poirot, o promotor público e a Scotland Yard investigam o caso, mas é Poirot, obviamente, quem o resolve, surpreendendo a todos com seu método preciso e detalhista: a polícia, os personagens, o promotor, o juiz, os leitores e, talvez, até a própria autora, já que esta era a sua primeira incursão no gênero. Pelo que propõe, e como propõe, O misterioso caso de Styles transformou-se num marco do romance policial, sempre citado por críticos e estudiosos, ainda que Agatha Christie, com sua capacidade de variação e virtuosismo, o tivesse superado mais tarde com romances bem melhores.
sábado, 29 de janeiro de 2011
OS PECADOS DOS PAIS
Os pecados dos pais é um dos melhores romances de Lawrence Block, um dos principais representantes da terceira plêiade de escritores policiais norte-americanos, se concordarmos que o gênero nos EUA começou com Edgar Allan Poe, no século XIX, prosseguiu com James M. Cain, Raymond Chandler, David Goodis, Dashiell Hammett e outros, na primeira metade do século XX, até chegar a Lawrence Block e seus pares, nas décadas seguintes.O argumento deste romance, que é um dos mais breves do autor, é tradicional e, ao mesmo tempo, surpreende pelo deslocamento que promove na construção narrativa, mais precisamente no foco da investigação. Uma jovem (bonita, evidentemente) é encontrada morta em seu apartamento. É óbvio que foi assassinada, e o principal suspeito é um de seus amigos mais próximos, que morava com ela e é detido na rua em estado de choque, as roupas cobertas de sangue. O pai da moça, inconformado com o resultado das investigações da polícia, contrata o detetive particular Matthew Scudder. É então que o relato torna-se precioso: o detetive começa a investigar o crime em busca do assassino, mas, gradativamente, deixa-se atrair pela vida pregressa da jovem morta, cheia de detalhes inesperados e incursões sensuais.
Formado na tradição do relato policial angloamericano, de investigação pura (Poe, Agatha Christie) ou embate corporal com os bandidos (Hammett, Chandler), Lawrence Block, neste romance, flerta com o método de criação do belga George Simenon, que, na figura do seu célebre detetive, o comissário Maigret, preferia enfatizar a vida das pessoas que transitavam em volta da vítima, em detrimento do crime em si, para ele uma simples consequência de atos humanos e corriqueiros.
O desfecho, no entanto, reconduz a narrativa a um fluxo mais coerente com a formação de Block, e não é incomum que vejamos, no último ato do detetive, um reflexo do procedimento de vida do investigador particular Philip Marlowe, de Chandler. Como Marlowe, Scudder é um homem solitário, desencantado, cínico e, com alguma frequência, mostra-se um moralista incurável, um romântico aprisionado à servidão de si mesmo: um sujeito sem ilusões pessoais. Tais características emolduram a sugestão de autopunição que ele oferece ao assasssino, e que este, fragilizado e seduzido, segue à risca.
Mas isso não é demérito ao livro nem ao seu autor. Pelo contrário: sendo o detetive quem é, um católico, e depois de viver o esfacelamento da própria família, é natural que ele aja daquele jeito: com a noção, equívoca, de que pode consertar e reger o mundo.
Marcadores:
Agatha Christie,
Dashiell Hammett,
David Goodis,
Edgar Allan Poe,
Ensaios e resenhas,
Escritores policiais,
Georges Simenon,
James M. Cain,
Lawrence Block,
Mayrant Gallo,
Raymond Chandler,
Romances
sábado, 8 de janeiro de 2011
BADLANDS, O FIM DO SONHO AMERICANO
Não são muitos, na ficção norte-americana e mundial, os textos inspirados no assassinato do presidente John Kennedy, o terceiro mais importante evento da história dos EUA durante o século XX: o primeiro seria o ataque japonês a Pearl Harbor e a derrota no Vietnam. Romances de valor sobre aquele crime, se acreditarmos verdadeiras as palavras de Jonathan Vankin, há dois: Libra, de Don Delillo, e Tabloide americano, de James Ellroy. Ambos muito elogiados e pilares em seu gênero. Nos quadrinhos, especialmente, havia um hiato, até que surgiu, em 2003, quarenta anos após a morte de Kennedy, Badlands, o fim do sonho americano, de Steven Grant (roteiro) e Vince Giarrano (arte).A narrativa é fluente, e o enfoque, inédito: Lee Harvey Oswald não matou Kennedy; foi posto na história, e na História, como um curinga de baralho, porque o verdadeiro assassino desapareceu e era preciso oferecer um culpado à nação e ao mundo. Quanto aos verdadeiros responsáveis pelo crime, certamente o financiou a esfera política insatisfeita com o desempenho do presidente, com suas gafes, suas trapalhadas. Os desenhos, num P&B cinematográfico, são realistas e movimentados, com ângulos que surpreendem e obrigam o leitor a se deter um instante, ao mesmo tempo fascinado e avaliando o que viu.
Um outro aspecto do qual o leitor tira enorme proveito reside no fato de que a história não se esgota na primeira leitura: do tipo enquadrado e com muitos vaivéns no espaço e no tempo, apresenta uma montagem que a princípio não parece coerente ou, pelo menos, soa canhestra. Mas esse é o propósito: deixar a cargo do leitor organizar a narrativa, conforme a recepção das partes e o encadeamento dos quadros em sua mente. Badlands é ainda valiosa por intercalar em sua representação de um evento histórico, e com bastante coesão, sem parecer uma ferramenta postiça, referências precisas à vida corrente dos anos 1960, como a música popular (especialmente Beatles), a contracultura, o amor livre, a Guerra Fria, o mundo burguês endinheirado (com sua afetação e suas manias) e os hippies nômades.
Mal terminei de ler Badlands, já sabia que a leria de novo, em breve, o que só muito raramente ocorre com uma HQ, e em geral com aquelas que apresentam um grau mais elevado de arte, ou por seus desenhos ou por seu assunto: Eisner, Berardi & Milazzo, Pratt, Moebius, Manara. Talvez não tenha sido esta a intenção dos criadores de Badlands, mas é inegável que, como HQ policial baseada num acontecimento histórico dos mais relevantes dos EUA, a versão que ela sugere é original e duradoura: Kennedy não foi assinado por um louco, nem eram loucos aqueles que o assassinaram; houve premeditação profissional e havia um agente que apertou o gatilho e que, por uma interferência irônica mais interna que aleatória, escapou ao seu destino de bode expiatório.
Com isso quererá nos dizer que não se pode manipular a contento uma cadeia de eventos? Não sei, afinal de contas é só uma HQ.
domingo, 2 de janeiro de 2011
"MARKHEIM", DE STEVENSON
O fato de classificarmos A cartomante, de Machado de Assis, como um conto policial evidentemente desagrada aos puristas. Aqueles leitores que por ingenuidade acreditam que a ficção policial é uma exclusividade da literatura de consumo ou de entretenimento, e que a chamada "alta literatura" jamais se interessa pelo gênero ou, quando o faz, é com outros propósitos. Não só A cartomante é um conto policial, e dos melhores já escritos, como inúmeros outros "altores" (isso mesmo, com "L", para dar conta de "autores altos", inseridos na alta literatura) incorreram no gênero, e ainda o fazem, e cada vez mais. Ontem, voltando ao meu "regímen" antigo, de ler por dia pelo menos um conto, reli Markheim, de Robert Louis Stevenson, que integra a antologia organizada por Bráulio Tavares Contos fantásticos no labirinto de Borges (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005). Como o conto supracitado de Machado de Assis, este relato de Stevenson é do gênero policial, mas não se restringe a contar ou elucidar um crime. Há um crime, evidentemente, que poderíamos classificar de primeira história, ou história visível, como propõe Ricardo Piglia, e há a história secreta, apresentada em segundo plano, e que se mostra no desfecho, quando o protagonista, um assassino, pela primeira vez decide por si mesmo sobre sua vida. Até então ele ia ao curso dos acontecimentos. Agora, contudo, toma uma séria decisão, e exatamente quando, pressionado pelo mal e por ele instigado, era mais fácil se deixar conduzir. A iconoclastia que durante toda a vida lhe esteve a serviço do crime o fez tomar o caminho oposto, e com isto, em circunstâncias pouco dignas e desfavoráveis, Markheim se redime. No conto, o assassinato e suas consequências, narrados com riqueza de detalhes, serviram como pretexto para um exame mais largo e profundo acerca da condição humana, o que, por outro lado, não o transforma em outra coisa, é ainda um relato policial. Tais características fizeram deste conto um dos preferidos de Borges.
domingo, 8 de agosto de 2010
O CÃO DOS BASKERVILLES

Péssima adaptação para os quadrinhos do célebre romance de Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930). Os inimigos das HQs vão adorar, pois é com trabalhos assim que se afirma a supremacia da literatura sobre o gênero. O autor, Martin Powell, favoreceu tanto a linguagem ágil dos quadrinhos em detrimento do texto, que a investigação de Sherlock Holmes se diluiu, ficando praticamente ausente. E o leitor atento se pergunta, ao fim da leitura, se a fama do detetive procede mesmo, afinal de contas ele não faz quase nada. Outro aspecto negativo é o desenho de Daniel Perez, indeciso entre uma representação ocidental do século XIX ou oriental-contemporânea, sob influência dos mangás. Os personagens mais velhos parecem arrancados de gibis antigos, e os mais jovens, recém-saídos de um show de rock, com narizes afilados, olhos graúdos e cabelos espetados. A editora On Line também deixa a desejar, pois logo na capa estampa errado o nome do roteirista: Martin "Powlel". O auge, no entanto, com o perdão do paradoxo, é esta fala: "É a vez 'de o' vilão 'de ser' caçado". Bastaria o simples e funcional: "Chegou a vez de caçar o vilão". Ou, se quiséssemos apenas corrigir os erros: "É a vez do vilão ser caçado". Por fim essa pérola, na seção de informações sobre o autor e os adaptadores: "Antes de sua morte em 7 de julho, em 1930, Conan Doyle havia escrito um total de 56 histórias 'sobre' o detetive". Ora, não é "sobre" o detetive, é "com" o detetive. Enganam-se aqueles que acham que não há semântica nas preposições. Entre as muitas adaptações de obras literárias para os quadrinhos, tendência que tem se intensificado nos últimos anos, essa é de fato a pior. Lamentável, pois o público ledor visado é, ao que parece, o mais jovem, em formação.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
PERSEGUIDO
O primeiro livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza tendo o delegado Espinosa como personagem, O silêncio da chuva, recebeu os prêmios Nestlé e Jabuti, manipulando desde já como mestre as "regras" e estilos do gênero, aliando a aventura e o suspense com uma análise aguda da realidade do Rio de Janeiro e, por conseguinte, do Brasil. Achados e perdidos, Vento sudoeste e Uma janela em Copacabana, continuaram com o mesmo ímpeto e qualidade. Em Perseguido, porém, Garcia-Roza realiza um passo a mais. Sem favor nenhum, é seu melhor livro e uma das melhores obras de suspense psicológico!
O Dr. Artur Nesse é um psiquiatra de um hospital universitário que está no início do tratamento de um novo paciente. De imediato, somos confrontados com o fato, que o doutor vai percebendo aos poucos, de que o rapaz possui algo dentro de si bem diferente dos demais pacientes. Há algum fator que liga a vida de Isidoro Cruz, o paciente que se diz chamar na verdade Jonas, ao médico. Não possui nenhuma resposta objetiva a suas perguntas e, embora faça questão de se tratar com ele, nunca lhe diz a que veio. Insidiosamente, vai desequilibrando a harmonia pessoal, psicológica e familiar do doutor, mistura-se com sua vida íntima e começa a namorar sua filha, sabe-se lá com que verdadeiros intuitos.
À primeira vista, parece que estamos diante de um repeteco dos roteiros de filmes. Já vimos isso várias vezes. No entanto, o labirinto psicológico a que nos conduz Garcia-Roza é profundo e inusitado. Ele brinca com nossas expectativas, zomba de nossas conceituações primitivas, alargando os termos do romance policial, a ponto de não sabermos se realmente acontece o tal assassinato. Não sabemos quem é o assassino, por certo, mas na verdade não sabemos sequer se podemos denominar alguém de "assassino"! A loucura, a morte e a paranóia atingem ao doutor, sua mulher, suas filhas, mas onde está a premeditação, quem está planejando tudo? Quem é o verdadeiro louco, o assassino, Nesse ou Jonas?
Nada mais pode ser dito. Em um dos finais mais instigantes que conheço, ficaremos como o delegado Espinosa, diante do fato concreto da morte e da tragédia, mas sem sabermos sequer como começar a entender o que está acontecendo.
CLAUDINEI VIEIRA, UM INFILTRADO.
domingo, 25 de abril de 2010
MESTRE DE FUGAS
De vez em quando lemos um romance policial que não se parece com nenhum outro. É o caso de Piloto de fuga (The getaway man), de Andrew Vachss. A história de Eddie é contada em ritmo e tom de fábula, desde seus dias de delinquência juvenil até a época em que ele se torna um motorista profissional de quadrilhas: o cara que fica no carro, com o motor ligado, à espera dos companheiros que assaltam, para fugir. Neste sentido, ele passa pela "educação primária", pelo "segundo grau", pela "graduação", "mestrado", até atingir o estágio de "doutoramento", quando começa a colaborar para o aperfeiçoamento de sua profissão, com novas ideias, novos métodos e práticas. A rigor, o romance não tem uma trama, o que pode frustrar e desestimular muitos leitores do gênero. Parece mais um livro das memórias de um bandido que, aposentado, resolve contar sua história, dos primeiros dias àquele momento que significou, para ele, o ápice de sua carreira. É, portanto, um romance policial de ação: os bandidos estão em primeiro plano e só eles importam. Policiais e juízes, sempre esvaziados de qualquer psicologismo, são quase autômatos, encarregados apenas de prender e condenar. O narrador parece, com isso, querer afirmar que as verdadeiras pessoas, as mais humanas e complexas, são os bandidos. É nesse cenário onírico e sem contornos, nessa realidade opaca e definida com um mínimo de recursos, através de uma escrita direta e elíptica, que Eddie "trabalha", se envolve ingenuamente com três mulheres, adquire gosto pelo cinema (em especial, filmes sobre motoristas e carros em fuga) e projeta sua aposentadoria. Mas algo inesperado acontece... E a questão que se coloca não é se ele, mestre de fugas, vai conseguir escapar, mas "como" vai escapar e "com o quê", pois, uma vez que a história é narrada em primeira pessoa, não resta dúvida de que ele sobreviveu. Ou está gozando dos benefícios que a riqueza proporciona, livre do trabalho e do assédio da polícia, a ponto de escrever sobre si mesmo e suas experiências, ou apodrecendo na cadeia, com todo o tempo do mundo para relembrar sua vida.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
GEORGES SIMENON
Como Maigret, seu mais famoso personagem, Georges Simenon era em si uma figura ímpar. Nascido em 1903 na Bélgica, foi para a França e se tornou um dos maiores escritores de todos os tempos. Construiu sua carreira de forma determinada, planejada, dirigida. Consciente da necessidade de criar um estilo e uma arte particulares, durante vários anos "treinou", escrevendo centenas de livrinhos obscuros de vendagem imediata, o que garantia sua sobrevivência e o obrigava a testar seus limites. Nesta época, utilizou dezenas de pseudônimos, sendo os mais freqüentes Georges Sim e Jean du Perry. Quando sentiu que estava preparado, deixou os pseudônimos e organizou O lançamento. Foi numa sexta-feira, 20 de fevereiro de 1931, em Montparnasse, coração de Paris. Festa para o lançamento de dois romances de um novo detetive, anunciada como a Noitada Carcerária. Simenon confeccionara e espalhara pela cidade milhares de cartões postais, com frases instigantes retiradas das obras. Os "convites" eram fichas de intimação judicial com o nome do indiciado, isto é, convidado. A decoração do salão era sistemática: algemas, mãos ensanguentadas, corpos decapitados. Os porteiros estavam à caráter: uma prostituta, um cafetão e um açougueiro com um facão manchado de sangue. Pierre Assouline, um dos biógrafos de Simenon, conta que, para entrar, os convidados ainda eram obrigados a preencher uma ficha e deixar as impressões digitais. A festa foi um sucesso estrondoso.
Georges Simenon está por inteiro neste episódio. Misto de showman com escritor clássico, mexendo com temas perenes e eternos da literatura mundial, ferrenho defensor dos rendimentos que o tornaram um dos homens mais ricos de sua época e uma verdadeira usina de produção literária: escrevia com uma velocidade, quantidade e qualidade impressionantes. Escrevia romances em uma semana e publicava vários por ano. Ao final de sua vida, deixou por volta de quatrocentos livros escritos, sendo que destes "somente" setenta e cinco eram de Maigret. Foi traduzido para mais de cinquenta línguas, vendeu mais de quinhentos milhões de exemplares, foi transposto para o cinema, televisão, teatro e quadrinhos.
Maigret, portanto, mais do que um simples personagem de literatura, faz parte do patrimônio cultural da humanidade.
CLAUDINEI VIEIRA, um infiltrado, é contista, com incursões também pelo relato policial. Publicou Desconcerto (São Paulo: Demônio Negro, 2008).
domingo, 18 de abril de 2010
UM OUTRO MAIGRET
Em Maigret se diverte (Maigret s'amuse), Simenon, fazendo jus à fama de virtuose, promove uma inversão: o comissário Maigret está de férias, mas não sai de Paris; nesse ínterim, um terrível crime acontece, e ele resolve acompanhá-lo pelos jornais, incógnito. Esse deslocamento permite que experimente o outro lado da investigação, o ponto de vista das pessoas comuns, que, nos anos 1950 muito mais que atualmente, compravam os jornais para acompanhar o andamento das investigações policiais, como se estivessem diante de um folhetim ou de uma série de cinema, gêneros que em nossa época se converteram nas telenovelas e nos seriados de tevê, apesar do próprio Simenon afirmar que "a gente nunca pode acreditar no que dizem os jornais". E, como um fã fervoroso, Maigret se irrita, faz conjecturas, não se contém de expectativa por novas notícias e chega a escrever mensagens anônimas aos seus colegas da polícia encarregados da investigação. O desfecho, definitivamente um dos mais originais que Simenon imaginou, é quase um hino à amizade e à colaboração mútua entre policiais e colegas de trabalho, não importando quem é o chefe e quem é o subordinado. Publicado em 1957, Maigret se diverte é um excelente exercício de ponto de vista e, sem dúvida, um dos mais criativos romances com o comissário. Eu, que já havia feito a minha lista com meus 10 livros preferidos da série Maigret, tive que excluir um para acrescentar este, uma obra-prima de virtuosismo e imaginação. Imperdível!
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
O SOL POR TESTEMUNHA
Adaptação livre do romance
policial O talentoso Ripley (1955), de Patricia Highsmith, o filme O
sol por testemunha (1959), dirigido por René Clément, promove no espectador
um deslocamento e uma subversão: o ponto de vista é o de um assassino, e
estranhamente não o repudiamos. Tom Ripley (Alain Delon) faz um acordo com um
milionário, que deseja o filho, Philippe Greenleaf (Maurice Ronet), de volta
aos EUA. Ripley aceita a missão em troca de uma generosa quantia. Parte, assim,
para a Itália, onde Philippe vive com a namorada, Marge (Marie Laforêt).
Philippe é um típico playboy, que não tem muitas preocupações, a não ser
a de gastar dinheiro e curtir a vida. Ripley, por sua vez, é um jovem pobre,
mas com inúmeras habilidades, como, por exemplo, o talento em imitar a
voz e os gestos de uma pessoa, bem como o de falsificar assinaturas. Philippe
apenas tolera Ripley enquanto este o serve como um brinquedo, enquanto o
diverte. Finda a brincadeira, é preciso colocá-lo em seu devido lugar. O tempo
todo Philippe humilha o "amigo", chegando ao ponto de deixá-lo, por
várias horas, exilado num bote amarrado ao barco em que estavam, sob um sol
escaldante, causando-lhe forte insolação. Ripley, cínico e com a fina ironia que
lhe é peculiar, finge não se importar com isso. No entanto, como já invejava
Philippe, sua fortuna e sua namorada, vê neste fato a justificativa perfeita
para o plano que tinha arquitetado: matar Philippe. E o faz tendo o sol
mediterrâneo, às suas costas, como a única testemunha. Em lugar da escuridão da
noite, o sol inclemente, quase branco de tão intenso: uma quebra de regra do
que se convencionou chamar de cenário ideal para um filme noir. Ripley
assume, então, a identidade de Philippe, toma posse dos seus bens e, pouco a
pouco, conquista sua namorada. Tudo perfeito, se não fosse por um detalhe: ter deixado — sem querer, é claro — um vestígio do crime: o
corpo de Philippe, emaranhado ao casco do navio, e que será descoberto no
desfecho do filme. Na referida sequência, Tom Ripley está na praia e é chamado
para atender a um telefonema, sem saber que policiais o esperam. Não é
necessário explicar o que vai acontecer depois disso. O espectador já sabe. Por
isso, o desenlace é apenas sugerido. Sugerido, pois Ripley, destro e
escorregadio, é capaz também de se esgueirar da polícia... Portanto, o final é
aberto. Além de uma envolvente história policial, O sol por testemunha
conta com uma belíssima fotografia e excelentes atuações, com destaque para o
ator francês Alain Delon. E acontece com o espectador uma estranha
transformação ao assistir a este filme: criamos uma forte empatia com o
criminoso, não conseguimos sentir raiva de Tom Ripley. Contemplamos seus
atos até com certo pesar, sem dúvida, mas sem detestá-lo — condescendentes,
talvez devido à sua beleza e ao seu charme, que também são de Alain Delon. É,
talvez.LIDIANE NUNES, uma infiltrada.
domingo, 22 de novembro de 2009
AGÊNCIA No.1 DE MULHERES DETETIVES
Talvez seja um lugar-comum dizer o quanto o formato do romance policial é maleável o suficiente para incluir qualquer espécie de discussão, através de suas regras aparentemente simplistas (do crime cometido, da caça ao criminoso, do detetive astuto etc.). Assumo o lugar-comum e o repito, pois ultimamente ele tem sido bem alargado.As possibilidades parecem ser infinitas. As misturas também: podemos lembrar, assim rapidamente, de alguns clássicos: Rex Stout (romance policial e humor), Ross Macdonald (romance policial, discussão social e conflito de gerações), Harry Kemelman (com um rabino como detetive!), o que já havia sido experimentado por G. K. Chesterton, com o seu Padre Brown. As novas gerações de romancistas policiais têm levado ao extremo as mais recentes tendências socioeconômicas mundiais, como a “absoluta urbanização”, a globalização feroz, a violência (física ou psicossocial), a miséria, a corrupção política e institucional. Se o romance policial é uma forma ou fôrma, está servindo muito bem para caracterizar a humanidade atual. Os modernos James Ellroy, James Lee Burke, o nosso brasileiríssimo Alfredo Garcia-Roza (ambientando suas histórias nas ruas do Rio de janeiro), por exemplo, estão dando conta do recado: refletem, discutem, pensam.
Por outro lado, o “modelo” policial está servindo muito bem para algumas experiências muito interessantes e para a apresentação de alguns novos lugares com suas visões especialmente particulares: o marselhês Jean-Claude Izzo, o sul-africano Henning Mankell, o tcheco Josef Skvorecky, a chilena Marcela Serrano. E, se por acaso, há um certo perigo de exotismo barato, isso tem sido superado por uma característica geral (pelo menos, entre os autores que estou citando): a excelência dos textos.
O Agência No. 1 De Mulheres Detetives, de Alexander McCall Smith, tinha tudo para ser um simples livro exótico, a começar pela ambientação: a pequena e provinciana cidade africana de Gaborone, em Botswana, antigo Protetorado de Bechuanalândia. Botswana é quase que uma exceção no grande painel dos problemas que assolam os países africanos, embora ao mesmo tempo seja representativo dos seus enormes contrastes: enquanto por um lado, Botsuana apresenta um dos índices mais tranqüilos de estabilidade econômica e política, por outro lado é justamente o lugar de maior incidência de casos de AIDS na África e, consequentemente, do mundo.
O "exotismo" poderia continuar pela sua história: a gorda e independente Mma Ramotswe (Mma é o tratamento local para uma mulher; seria uma espécie de "Madame", "Senhora") decide fundar seu próprio negócio com a venda do pecúlio herdado do seu pai, algumas cabeças de gado acumuladas durante a vida. Como o gado é um bom indicativo na escala social, principalmente se estiver com boa saúde, ela consegue um bom preço. Compra uma casa (outro bom indicativo social) e, ao invés de abrir uma loja de roupa ou uma oficina, decide abrir uma agência de detetive. Vejamos bem: não há, nunca houve nenhuma espécie de detetive particular na região (ou, até onde podemos saber, no País), muito menos dirigida e assumida por uma mulher. De tal forma, que nem mesmo ela sabe que tipo de trabalho pode acabar pegando. E seu único auxílio teórico é um livro de um curso de detetive por correspondência e que, na prática, se revela bem inútil.
O que poderia se tornar um romance satírico ou até mesmo infantilóide, se transforma nas mãos de Alexander McCall Smith em uma deliciosa crônica de costumes. O autor consegue, com uma escrita simples e direta, transmitir um bom humor saudável em um perfeito equilíbrio de situações e temas delicados e espinhosos. Seus personagens são tão carismáticos e bem delineados que ficam em nossa memória.
É óbvio que o destaque é Mma Ramotswe. Ela esbanja simpatia, compreensão e um bom-senso invejáveis. É um bom-senso nascido de sua condição de mulher e africana num lugar onde o machismo, o moralismo (falso e hipócrita) e os preconceitos religiosos ainda imperam. Para que nasce uma mulher, se não for para casar, ter filhos e lavar a louça? Ou eventualmente trabalhar fora, se o marido estiver desempregado? Ela transita no meio desses problemas e limitações com desenvoltura e coragem. Ela conhece bem a situação, sabe onde está pisando, já foi casada, já perdeu um filho por conta das surras que recebeu, sabe que isso atinge todas as mulheres independentes de sua condição sociofinanceira.
Todos os outros personagens são bem apresentados, não resvalam para a caricatura nem para uma caracterização extremada. Memoráveis, por exemplo, são o próprio pai de Mma Ramotswe, Obed, que ganhou a vida como mineiro nas minas de carvão na África do Sul, enquanto acumulava dinheiro para comprar gado na sua terra natal, e o Sr. J. L. B. Maketoni, mecânico e melhor amigo de Mma Ramotswe, que sonha ser seu novo marido.
Esse equilíbrio do livro é admirável. Ele não cai nem para o dramatismo nem para a comédia desbragada, e o que poderia ser uma intragável salada africana é coerente e suave como o chá de “rooibos” tomado por Mma Romatswe e sua secretária, a única funcionária da agência. Dessa forma, os "casos" podem nos levar a um crocodilo-assassino (o único assassinato do livro, aliás), à busca de um garoto desaparecido, que levanta o véu sombrio dos feiticeiros africanos ou ao desmascaramento de um médico picareta. Mas todos eles têm em comum a sensibilidade, o vislumbre de pedaços da alma humana.
CLAUDINEI VIEIRA. Contista e infiltrado recorrente deste blogue.
Marcadores:
Alexandre McCall Smith,
Claudinei Vieira,
Comentários,
Ensaios e resenhas,
Escritores policiais,
G. K. Chesterton,
James Ellroy,
James Skvorecky,
Rex Stout,
Romances,
Ross MacDonald
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
A SANGUE-FRIO: 50 ANOS
Era 15 de novembro de 1959, dois homens invadem a casa grande da fazenda River Valley, na cidade de Holcomb, Kansas, EUA, e matam friamente toda uma família: o senhor Herb Clutter, sua esposa Bonnie e seus dois filhos Nancy e Kenyon. Buscavam uma fortuna que não existia e que supostamente estava num cofre, ignorado pela família.O crime chocou Holcomb, os EUA e o mundo. E chamou a atenção do escritor Truman Capote, jornalista experiente e autor de uma pequena obra-prima, levada às telas de cinema com estrondoso sucesso: a novela Bonequinha de luxo.
Capote praticamente se muda para Holcomb, onde empreende uma longa pesquisa sobre o que ocorreu e, ao fim de muitos incidentes, escreveu A sangue-frio, um dos mais importantes romances-reportagem já escritos, se não o maior, mais bem-acabado, uma verdadeira obra de arte literária e, também, um documento histórico-jornalístico de uma terrível chacina.
Os protagonistas do livro são exatamente os dois assassinos: Perry Smith e Dick Hickock. O cotidiano de ambos, seus passos depois da matança, suas famílias, o que eles pensam sobre o que fizeram e o que acham que vai ocorrer, quando forem capturados. Os Clutter também são examinados ao olhar atento de um escritor que não perde nenhum detalhe. Os pais, os dois filhos, seus sonhos interrompidos, os amigos e parentes, o dia-a-dia traquilo e pacato abalado de repente por dois estranhos na noite...
A investigação policial também é acompanhada passo a passo, desde as primeiras cenas do crime até a execução dos assassinos, num dos maiores exemplos de virtuosismo narrativo de que se tem notícia. Sem parecer artificioso, Capote passa com desenvoltura de um foco dramático a outro — a família, os criminosos, os habitantes da cidade, a polícia —, mostrando que uma boa história flui naturalmente: basta que o escritor domine sua matéria, não pense em se exibir e saiba equilibrar estilo com informação, estética com funcionalidade.
Elegante, fluido, artístico, poético, cruel e inesquecível. Longe de ser o óbvio relato de um crime bestial, A sangue-frio constitui o monumento de um tempo e um lugar, abalados ambos pela atitude impensada de dois monstros, que fizeram de uma determinada noite de novembro de 1959 uma inesperada pintura de sangue e palavras.
domingo, 8 de novembro de 2009
MÚSICA PARA OS OLHOS
Para os apreciadores de jazz, cinema noir e literatura policial, este CD é, obviamente, um sonho. Jazz at the movies band é a banda; White heat: film noir, o disco, lançado nos EUA em 1994. Numa ideia genial, o sexteto formado por Bill Cunliffe, Mark Portman, Matt Harris, Roberto Valle, Bernie Dresel e Brad Dutz reuniu 13 dos maiores temas musicais do cinema noir e, com o apoio de músicos adicionais, simplesmente arrasou. Os filmes e as canções são: This gun for hire (dirigido por Frank Tuttle, 1942), The bad and the beautiful (Vincent Minnelli, 1952), White heat (Raoul Walsh, 1949), Double indemnity (Billy Wilder, 1944), Touch of evil (Orson Welles, 1958), Key largo (John Huston, 1948), Laura (Otto Preminger, 1944), The lost weekend (Billy Wilder, 1945), The postman always rings twince (Tay Garnett, 1946), The asphalt jungle (John Huston, 1950), The big sleep (Howard Hawks, 1946), The strange love of Martha Ivers (Lewis Milestone, 1946), The naked city (Jules Dassin, 1948). Um CD que é uma obra-prima, como muitos dos filmes aqui presentes, entre os quais Dupla indenização, A marca da maldade, O destino bate à sua porta, O segredo das joias e O sono eterno, alguns baseados em romances célebres, de escritores não menos célebres, como Raymond Chandler, James M. Cain, Vera Caspary (autora de Laura) e Whit Masterson (autor de A marca da maldade). Bem, prepara aí o martini (bem seco) ou um vinho, liga a "vitrola" e dispara. Boa música para os ouvidos e também para os olhos.
Marcadores:
Billy Wilder,
Comentários,
Discos,
Filmes,
James M. Cain,
Jazz,
John Huston,
Noir,
Orson Welles,
Otto Preminger,
Raoul Walsh,
Raymond Chandler,
Tay Garnett,
Vera Caspary,
Whit Masterson
Assinar:
Postagens (Atom)













