Noir francês

A lua na sarjeta (La lune dans le caniveau, 1983), David Goodis por Jean-Jacques Beineix.

sábado, 5 de setembro de 2009

O OVO DE OURO

Este é um dos mais impressionantes e perfeitos romances policiais já escritos, e ainda mais porque vem de uma literatura pouca afeita ao gênero: a literatura holandesa. O argumento é simples: Rex e Saskia, de férias, estão na estrada. O destino do casal, uma casinha numa colina acima do Mediterrâneo. Dias livres, sol, só eles dois, paz, aconchego, initimidade. Quando param num posto de gasolina, Saskia desaparece. Nós, leitores, sabemos que ela foi sequestrada pelo terceiro personagem da história, um professor, mas Rex não. Daí por diante, por meses e anos a fio, através de campanhas na tevê e nos jornais, ele busca saber o paradeiro da namorada. Apela ao criminoso, roga que ele apareça, ao menos para lhe revelar o que aconteceu com Saskia. Até que um dia o criminoso o procura... O resto da trama, o seu desfecho propriamente dito, se revelado aqui, embora não chegasse a tirar o brilho e a força desta história, poderia fazer alguns leitores perder o interesse pela leitura. O certo é que ninguém jamais sairá ileso deste livro, que foi filmado na Holanda em 1991, ganhando vários prêmios internacionais, e depois, em 1993, nos EUA, com o final alterado, o que acabou por diluir o efeito aterrorizante, e metafórico, da história original. Nas duas versões, o título no Brasil foi O silêncio do lago. Um livro que jamais será esquecido por ninguém, mesmo porque conta, através de um sequestro, uma dolorosa história de amor, e as histórias de amor são inesquecíveis. O autor, Tim Krabbé, é jornalista, escritor e jogador de xadrez.

MAYRANT GALLO, um infiltrado.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

JAMES M. CAIN

Nascido em 1892 e morto aos 85 anos, em 1977, James M. Cain só publicou seu primeiro livro aos 42 anos, o arrebatador O destino bate à sua porta, em 1934. Esta novela, de pouco mais de 100 páginas gerou três filmes (a primeira versão, não-autorizada, foi dirigida por Luchino Visconti e constitui um dos marcos do Neo-Realismo italiano), legou ao autor um processo por obscenidade, conferiu-lhe fama e respeito, e inspirou Albert Camus, que confessou a influência do livro de Cain na motivação interna do seu romance O estrangeiro, hoje um clássico da literatura universal. O destino bate à sua porta forma com Dupla indenização (1935), filmado por Billy Wilder, o par de obras mais conhecido, polêmico e reeditado de Cain, às vezes num só volume. Outra obra muito discutida é A borboleta, de 1946: relato de amor e incesto entre pai e filha. (Na adaptação para o cinema, Orson Welles interpreta o pai.) Cain foi professor de matemática, jornalista, cantor, editor, militar e roteirista de filmes em Hollywood. Seus romances estão na fronteira entre a literatura mais séria (de reflexão e proposta de renovação do assunto e da forma), e o relato policial de entretenimento, que só quer fisgar o leitor e conduzi-lo com interesse até o desfecho, gênero do qual foi um mestre indiscutível. Publicou ao todo 18 livros, com destaque ainda para O instituto, A mulher do mágico, Serenata e A história de Mildred Pierce, considerado por muitos críticos, admiradores e escritores a sua obra-prima.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A FRAUDE

Um surpreendente noir contemporâneo. A trama oscila entre a tradição, com o resgate de regras e escolhas do gênero, e uma originalidade baseada na reunião de aspectos oriundos de outros filmes: o cenário, a pequena cidade de Hastings, é frio e melancólico, como em Fargo; o entrecho retoma o clássico Pacto de sangue, de Billy Wilder, pois envolve venda de seguros; a fotografia é soturna e suja como em Seven e, na sequência final, há uma referência quase didática ao cultuado longa-metragem francês Rififi, de Jules Dassin. O agente de seguros Holt investiga a bela Isold, única beneficiária do seguro de vida do irmão, morto recentemente num acidente de automóvel, e logo descobre a existência de uma fraude. Paralelamente a esta descoberta, há outras, envolvendo a própria Isold, seu sobrinho, seu irmão e seu atual marido, num jogo de máscaras, erotismo e troca de personalidades. Um filme policial atraente, independente, alternativo e cheio de estilo. Título original: A little trip to haven. Direção e Roteiro: Baltasar Kormakur. Ano e país de produção: 2006, EUA. Fotografia e duração: colorida, 90'. Atores principais: Forest Whitaker, Julia Stiles, Peter Coyote e Jeremy Renner.

O TIRO NO PIANISTA

Um dos melhores filmes policiais franceses dos anos 1960, ao qual Truffaut conferiu seu estilo sensível e humano de abordar os indivíduos perdidos. É ao mesmo tempo uma trama policial e um drama existencialista. Um grande pianista desencantado com a vida, condenado a tocar música ligeira num bar de segunda categoria, uma fã que o admira tanto agora quanto antes e que sonha em devolvê-lo aos grandes dias, um irmão problemático, perseguido por bandidos, o dono do bar, um sujeito sem princípios nem escrúpulos, um desentendimento, uma briga, morte, fuga... A sequência final, do tiroteio, é fonte de inspiração para muitos cineastas e provou que Truffaut era, de fato, um artista. Baseado no romance Atire no pianista, de David Goodis. Título original: Tirez sur le pianiste. Direção e Roteiro: François Truffaut. Ano e país de produção: 1960, França. Fotografia e duração: p&b, 97'. Atores principais: Charles Aznavour, Nicole Berger, Marie Dubois.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

UM PERSONAGEM CHAMADO BRAZIL

Ao tentar definir o protagonista de Mulher no escuro (1933), de Dashiell Hammett, cujo nome curiosamente é Brazil, Robert B. Parker acabou por resumir, no prefácio à edição de 1988, o espírito que move todos os personagens masculinos do autor: “Os homens, em sua obra, são como Brazil. Algumas vezes, são detetives, às vezes não, mas são homens que entendem a vida tal como Spade a entendia, esperando viesse o que viesse. São homens de poucos amigos e sem um contexto social permanente. Não têm família. A sua lealdade não é para com a lei, mas para com algo diverso, que pode ser chamado de ‘ordem’, um sentido de como as coisas deveriam ser. De muitas maneiras, estes homens parecem fazer parte do povo. Na verdade, ficou, por algumas vezes, muito na moda ver a obra de Hammett sob uma perspectiva marxista ― embora, para tanto, fosse necessário, muitas vezes, forçar um pouco a barra. Mas estes homens parecem imunes às coisas que impulsionam as pessoas. Não parecem ter medo da morte. Parecem resistir às tentações de dinheiro e sexo. Parecem pairar acima da dor e não se surpreendem com a crueldade. Não têm ilusões. Brazil, em especial, parece ter se acomodado dentro de uma grande calma, como se nada lhe importasse muito”. Talvez seja uma evidência de falta de cautela afirmar isso, mas me parece que esta é, no geral, a essência do personagem noir: desencantado com o mundo, sem raízes firmes em nenhum lugar, sem ambições maiores que o simples ato de viver, estóico frente aos fatos da vida, fleumático tanto com homens quanto com mulheres e fiel a uma ordem pessoal, atávica, que jamais sofre um abalo ou, quando o sofre, é de efeito breve, momentâneo.

DASHIELL HAMMETT

Dashiell Hammett (1894-1961). O autor que modernamente conferiu ao gênero policial um novo curso teve, parodoxalmente, uma vida incomum e atribulada. Deixou a escola aos 14 anos e daí por diante acumulou inúmeras ocupações, entre as quais carteiro, jornaleiro, balconista, jardineiro, operador de máquinas, estivador, detetive e, por fim, escritor. Também foi militar, servindo na Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Seus romances e contos mudaram o gênero policial, ao enfatizar o relato de ação em detrimento da narrativa de enigma. O romance O falcão maltês (1930), filmado por John Huston e com Humphrey Bogart no papel do frio e cínico Sam Spade, é considerado o mais característico, e a obra-prima, desta tendência. Em 1951, foi preso pela Comissão de Atividades Antiamericanas, liderada pelo general Joseph McCarthy, por se negar a deletar nomes de prováveis comunistas. De 1934 a 1961, quando faleceu vítima de um câncer no pulmão, Hammett não publicou mais nada. O romance Tulip ficou incabado. Obras: Safra vermelha (1928), A maldição em família (1928), A chave de vidro (1931) e O homem magro (1934), que inspirou uma série de filmes de sucesso, além de dezenas de contos, recolhidos de revistas e reunidos em volumes como Continental Op, inicialmente traduzido no Brasil com o título Ferradura dourada, e Tiros na noite. Em 1988, a novela A mulher no escuro (1933) foi reeditada depois de décadas de esquecimento. Como roteirista de Hollywood, adaptou A chave de vidro para o cinema.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

DUPLA INDENIZAÇÃO

Lançado no Brasil como Pacto de sangue, é em inglês fiel ao título do romance que o inspirou: Double indemnity, de autoria de James M. Cain, transformado em roteiro por outro mestre do policial: Raymond Chandler. É considerado, por parte da crítica, o filme que estabeleceu o gênero noir. Foi elogiado por Alfred Hitchcock. Direção: Billy Wilder. Ano e país de produção: 1944, EUA. Fotografia e duração: p&b, 108'. Atores principais: Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson.

domingo, 30 de agosto de 2009

PACTO DE SANGUE


Baseado no romance Indenização em dobro, de James M. Cain, dirigido por Billy Wilder e com roteiro de Wilder e Raymond Chandler, o filme Pacto de Sangue consegue prender a atenção dos espectadores tanto quanto um filme hitchcockiano. O filme começa com o corretor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray) chegando à empresa na qual trabalha, sentando à mesa do chefe e confessando que matou um homem por dinheiro e por uma mulher, mas não conseguiu o dinheiro, nem tampouco ficou com a mulher. Assim, o filme se inicia revelando o seu final, o que comprova a ideia de que o que mais importa numa narrativa não é o que nela acontece, mas como acontece. Nas primeiras cenas já sabemos qual será o término do filme, mas ele nos envolve de tal forma, que ficamos ávidos em acompanhar a história até o último momento. E o constante suspense do filme chega ao ápice na cena em que Neff recebe o chefe e amigo Keyes (Edward G. Robinson), enquanto espera pela Sra. Dietrichson (Barbara Stanwyck), mulher sedutora e calculista por quem se apaixona. Considerado o primeiro filme noir, Pacto de Sangue desenvolve uma trama que mistura amor, amizade, sedução, sexo (ainda que apenas sugerido), adultério, crime. Um filme com diálogos ácidos e primorosos. O mesmo se pode dizer da narração in off feita pelo protagonista, Walter Neff, na qual podemos ouvir, por exemplo: "Não conseguia ouvir meus próprios passos. Era a caminhada de um homem morto". Sem esquecer a pitada de humor (típica do gênero, que se notabilizou pela auto-ironia e desencanto dos personagens), na figura do analista de seguros Keyes e seus pressentimentos (seu homenzinho infalível), seu faro para assassinatos. Também chama a atenção a bonita amizade entre Neff e Keyes, motivo pelo qual Keyes, que nunca falhou com seus pressentimentos, jamais desconfiou de Neff: "Sabe porque não conseguiu solucionar este caso, Keyes? Vou lhe contar. Porque o cara que procurava estava muito próximo. Ele estava na frente da sua mesa." "Ele estava mais próximo do que isso, Walter. Eu também te amo". E aquela inversão no desfecho do filme: Keyes, que sempre tinha seu cigarro aceso por Walter, é agora quem acende, provavelmente, o último cigarro do amigo. É a ironia final. Dizem que o próprio Hitchcock, ao assistir a este filme, afirmou ter encontrado, enfim, em Billy Wilder, alguém que pudesse fazer par com a sua obra. Se ele, realmente, disse isso, quem somos nós para discordar do velho Hitch?

LIDIANE NUNES, uma infiltrada.